8 de fevereiro de 2013

Alejandro Reyes na 15a Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo

Por Juliana Welling
 
A tradicional Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo será realizada apenas de 27 a 31 de agosto, no Rio Grande do Sul. Mas a organização do evento já divulgou alguns dos autores que estarão presentes nesta 15ª edição de jornada. Dentre eles, estão o romancista mexicano Alejandro Reyes, autor de Vidas de Rua, Contos Mexicanos e A Rainha do Cine Roma, obra finalista do Prémio Leya 2008, e o espanhol Cesar Coll, diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva da Universidade de Barcelona, um dos principais coordenadores da reforma educacional espanhola e consultor do MEC, no Brasil, na elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais.

Já entre os autores brasileiros, participam neste ano: André Vianco (best-seller nacional, com mais de 500 mil exemplares vendidos no País), Nélida Piñon, Walcyr Carrasco, Jairo Bouer, Laura Müller e Raphael Draccon.

A Jornada Nacional de Literatura é realizada a cada dois anos, na cidade de Passo Fundo. Nesta edição, o tema central do evento será “Leituras Jovens do Mundo”, com o objetivo de explorar o potencial, as preferências e a diversidade de interesses e comportamentos do público jovem.
 
Os cinco dias de Jornada incluem também realizações paralelas e tradicionais, como a 7ª Jornadinha Nacional de Literatura, destinada a estudantes do ensino fundamental; o 12º Seminário Internacional de Pesquisa em Leitura e Patrimônio Cultural; o 4º Encontro Estadual de Escritores Gaúchos: a criação literária em debate; o 3º Seminário Internacional de Contadores de Histórias; o 2º Simpósio Internacional de Literatura Infantil e Juvenil; a segunda edição da JorNight, destinada especialmente aos jovens; e o 8º  Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, uma das mais prestigiadas premiações da cena literária brasileira. As inscrições estão abertas e podem participar romances de língua portuguesa publicados entre junho de 2011 e 31 de maio de 2013. O autor vencedor do prêmio de R$ 150 mil será anunciado na abertura da 15ª Jornada Nacional de Literatura.

Em 2011, o escritor João Almino foi o vencedor do Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura com o livro Cidade Livre (Record).

17 de dezembro de 2012

“A Rainha do Cine Roma” Alejandro Reyes (Oficina do Livro)

Publicado em: http://hasempreumlivro.blogspot.mx/2012/12/a-rainha-do-cine-roma-alejandro-reyes.html



Dados Biográficos:

O Autor nasceu na Cidade do México. É jornalista e escritor. Viveu durante alguns anos nos EUA e em França. Posteriormente. mudou-se para o Brasil onde trabalha como assistente social, sendo a sua população-alvo composta essencialmente por crianças e adolescentes que vivem na rua. A sua ligação à Literatura prende-se com o mestrado em Estudos Latino-Americanos na Universidade da Califórnia. Encontrava-se, à data da publicação deste romance, a efectuar o Doutoramento, também em Literatura Latino-americana, incidindo na temática da Literatura Marginal. Escreve ainda em várias publicações, ligadas a diversos movimentos sociais no México e nos Estados Unidos, além de ter também participado no Movimento Literário Baiano. No tocante a publicações literárias, do seu curriculum constam já, para além de A Rainha do Cine-Roma, romance finalista do Prémio Leya em 2008, os títulos Vidas de Rua e Contos Mexicanos.

A Rainha do Cine-Roma trata da vida de duas crianças que, por razões diversas – desestruturação da vida familiar ou simplesmente um meio social hostil –, acabam por viver na rua. Ali, recorrem a estratégias de sobrevivência reveladoras de uma notável força psíquica, audácia e sentido táctico. No entanto, a falta de modelos de referência e de estruturas de protecção colocam-nas em situação frágil, que se traduz num elevado grau de exposição ao risco. A prática de pequenos delitos – roubo, consumo e tráfico de drogas, que pode ou não estar associado a práticas de prostituição – fazem delas permanentes fugitivas aos grupos de extermínio (esquadrões da morte) que dirigem os seus alvos aos chamados “trombadinhas” ,além de se colocarem inadvertidamente sob o domínio dos traficantes doo sexo. Assim, as vidas de Betinho e Maria Aparecida desenrolam-se a partir de um apuradíssimo instinto de sobrevivência, que as faz caminhar constantemente no fio da navalha...No meio de tudo isto, os jovens protagonistas alimentam o sonho e a esperança como espectadores e hóspedes clandestinos do velho cine-teatro do bairro degradado onde vivem: o Cine-Roma.

O mérito de Alejandro Reyes consiste na forma esquemática com a qual consegue contextualizar as circunstâncias familiares e sócio económicas que empurram duas crianças que deveriam estar na escola para a marginalidade e exclusão social: a miséria extrema, a violência doméstica, o abuso sexual dentro do próprio agregado familiar, o desinteresse ou descuido dos familiares mas próximos. A isto junta-se a alienação das instituições, o corolário de um conjunto de factores que ajudam a perceber um pouco melhor quem não contacta directamente com esta realidade o porquê da escolha deste jovens – que, na verdade, não têm escolha, pois quase não encontram diferença entre o risco de viver na rua e a situação de perigo eminente que vivem diariamente em casa. Um retrato lúcido de uma realidade difícil de encarar pelas pessoas que sempre viveram dentro daquilo a que se chama a “normalidade”.

A trama evolui tendo com móbil principal a procura da liberdade e a não sujeição à prepotência vivida em família, em acelerado processo de entropia.

Num cenário de plena selva social, as formas de solidariedade emergentes em determinados grupos, são a faceta mais comovente do romance, onde facilmente conseguimos identificar ecos de Os Miseráveis do escritor francês Victor Hugo. Assim, no enredar da teia de prostituição em que se vê envolvida Maria Aparecida – e, também de Betinho – não conseguimos deixar de encontrar semelhanças com o percurso de Fantine. Se excluirmos a cena, talvez demasiado lírica, de redenção no final do romance, à qual Pepetela, algo eufemisticamente, classificou de “um fiozinho de açúcar, emoldurando uma réstia de esperança”, trata-se de um romance duro, pouco dado a “maquilhagem social” e totalmente distante do argumento cor-de-rosa das telenovelas.

Na beleza extrema de Maria Aparecida encontramos algo de selvagem, um não sei quê de libertino, com tiques de provocadora. Qualidades que, combinadas, resultam num cocktail explosivo que a transforma num objecto de desejo a perseguir encarniçadamente pelos seus predadores: a insubmissão. A situação de pobreza e ausência se suporte familiar direccionam-na fatalmente para a mira dos traficantes de carne humana, apesar de se tratar apenas de uma criança. Mas ao mesmo tempo, Maria Aparecida desperta, igualmente, a admiração e o sentido protector de alguns jovens prostitutos que gravitam à volta do velho teatro degradado. Enquanto partilha o abrigo com os pequenos travestis do Cine-Roma, a menina ainda consegue, durante um curto espaço de tempo, escapar do assédio de potenciais clientes e proxenetas. Por vezes, o sentimento de amizade e união entre estas crianças que encontram afinidades nas suas histórias passadas é tão grande que o sublime se instala em gestos de altruísmo sem precedentes, como é o caso de Betinho que se inicia na prostituição para proteger e alimentar Maria Aparecida, garantindo a sobrevivência de ambos. Chega, inclusive, a procurar refúgio numa organização religiosa, liderada por um pastor de nacionalidade francesa. A propósito deste episódio, o Autor dá a entender, nas entrelinhas do romance que, muitas vezes, as boas intenções de uma instituição colidem com um mais do que deficiente conhecimento da realidade. É o caso da religiosa que convence a menina do dever cristão de ajudar um pai doente, apelando ao cristianíssimo perdão, sem antes conhecer a fundo a história familiar de Maria Aparecida, ignorando o facto de a pré-adolescente se encontrar na rua precisamente por estar em perigo na presença do pai. Este encontra-se gravemente doente, mas não mudou nada, nem com o sofrimento nem com a doença. É o mesmo homem que, após perder o trabalho como pescador, por questões que lhe são alheias, descarregava na mulher toda a responsabilidade do trabalho doméstico, incluindo tratar da casa, do campo, das crianças, da venda dos produtos hortícolas para o sustento da casa...para além de continuar a ter comportamentos inadequados para com a filha.

O romance termina com um final “aberto” deixando diante do leitor todo um leque de possibilidades quanto ao desenrolar do futuro de ambos os protagonistas. Mas, seja qual for o caminho traçado, será sempre mais povoado de espinhos do que de rosas...

O estilo de Reyes é marcado por uma escrita que se pauta por um discurso descontraído, no qual Betinho é o narrador. Trata-se portanto de um romance autodiegético, onde o narrador é também uma personagem da história. Betinho descreve o percurso de Maria Aparecida – a Rainha do Cine-Roma como lhe chamavam –, na prisão, com toda a crueza da linguagem de quem passou pela experiência devastadora da destruição da infância, mas que, ainda assim, é capaz dos mais inesperados gestos de ternura. A escrita de Reyes é escorreita e o ritmo, dinâmico, o conteúdo, verosímil na sua maior parte, acusando uma terminologia composta pelo calão e gíria das ruas do Rio de Janeiro, como se vê no excerto que se segue:

O Lingüiça e a turma dele estavam sempre enchendo a paciência dos outros. Era um bando de meninos que morava lá na Barraquinha, espalhado pelos cantos e que vivia do roubo, da droga e da malandragem. Os tiras1 deixavam eles tranquilos porque o Lingüiça era esperto, repassava uma parte da grana para eles, não mexia com quem não tinha de mexer e cagüetava2 direitinho qualquer abestalhado que não entrasse na linha.

As vicissitudes pelas quais passam as personagens de Alejandro Reyes têm muito em comum com os meninos do romance Capitães de Areia de Jorge Amado, que agora se movimentam num mundo muito mais feroz, fruto da indiferença das classes privilegiadas e da corrupção das autoridades. Um livro onde a luz e a sombra caminham lado a lado, um retrato do Brasil que não aparece nas tramas kitsch das telenovelas, antes ao período de recuperação económica que tem, nos últimos anos, vindo a experimentar e a dar esperança ao povo brasileiro. Aguardamos o desenvolvimento dos próximos episódios. Ou das próximas décadas.

11.12.2011-14.12.2012
Cláudia de Sousa Dias
1Polícias
2Cagüetar: delatar, denunciar

29 de junho de 2012

Alejandro Reyes na Feira do Livro de Tocantins

Atravessando fronteiras:
O desafio de escrever sobre o outro

Palestra de Alejandro Reyes sobre o romance 
A Rainha do Cine Roma

Feira do Livro de Tocantins
Auditório do Palácio Araguáia
Palma - Tocantins
14 de julho de 2012
14h - 15h

20 de julho de 2011

Resenha de Jéssica Balbino

GRANDES LIVROS - Resenhas de Jéssica Balbino

A Rainha do Cine Roma
Autor Mexicano diz mais sobre o Brasil. Uma obra que emociona

por Jéssica Balbino



O melhor livro que li nos últimos tempos. Essa foi a sensação que fiquei quando cheguei no ponto final do romance “A Rainha do Cine Roma”, de Alejandro Reyes.
O mexicano que viveu em países como Estados Unidos e França conhece mais sobre o Brasil do que os nascidos nas terras descobertas por Cabral. E mais, escreve, com tanta propriedade, em sua literatura marginal, que tira o fôlego. Um livro preciso, direto – sem ser óbvio – triste, mas não sem deixar um rastro de esperança a cada novo acontecimento.
Na orelha, o veterano Ferréz avisa: “Alejandro Reyes prova, de uma vez por todas, que a dor é a maior escola que existe”. É verdade. As histórias de Betinho e Maria Aparecida, duas crianças que receberam do destino o pior que a vida poderia dar, se fundem com as nossas histórias, do dia-a-dia, da falta de sorte – ou seria excesso de azar? -.
Um livro forte. Que te faz mais forte. Duro, cru e cruel. Mas, real. Assim como a literatura marginal, periférica ou seja lá o nome que quiserem dar a quem fala dos excluídos, dos que vivem, como Betinho e Maria Aparecida, se alimentando com restos, dormindo em locais fétidos, em meio a ratos e baratos e que são obrigados a conviver com todo tipo de dor, abuso, e fragilização.
Duas crianças que ninguém – tampouco o sistema – jamais protegeu e que se amam, acima de tudo. E é esse amor que as faz chegar ao ponto final do livro, que sabemos não ser o ponto final de suas vidas e desgraças.
Mas há histórias felizes, de alegria, esperança, diversão e amor. Sim, amor, mesmo nas ruas de Salvador, uma cidade com todas suas cores e loucuras, exatamente como é mostrada no livro.
Alejandro Reyes é de uma escrita impecável. Com o português direto e sem firulas, nos mostra um mundo que, com frequencia, tentamos não ver. Aliás, nos esforçamos para escondê-lo, mascará-lo.
Amores proibidos, verdades, mentiras, noites de sexo louco, dias de lágrimas intermináveis, muitas horas – ou dias – sem comer e somente uma coisa: a esperança de dias melhores. Afinal, são duas crianças que não querem muito: apenas ficar juntas, num lugar que não cheire mijo e não tenha ratos por perto. Ah, e que não sejam agredidas simplesmente por morarem na rua.
Entre os inúmeros que já passaram pela minha mão neste ano. O melhor. Tão bonito quanto a Rainha do Cine Roma se tornou na minha imaginação.


Jéssica Balbino
Jornalista
www.jessicabalbino.blogspot.com

19 de janeiro de 2011

Blog do Peu: A Rainha do Cine Roma

Publicado em Blog do Peu


Este livro pra mim é como um dos filmes do Felline, não acaba, ele continua, porque a própria vida não acaba, idependente da sua presença aqui ou não. Tudo continua como sempre continuou antes de vc chegar, e vai continuar depois de vc sair.
Pra quem gosta de tragédias gregas, taí boas estórias de tragédia dentro desse livro, uma mais macabra que a outra.
A dor, linha por linha, o flagélo humano, o homem nada, a esquina mais sórdida da sociedade. Haja coração...
No meio desse lixo todo, existe uma rainha, a Maria Aparecida é a Rainha do Cine Roma. Uma bela criança maltratada pela vida, durante todo seu caminho, maus tratos e humilhação. Contudo se você gosta de humanidade, não tenha medo, vá direto, talvez você se depare com os momentos mais humanos da sua vida, ali diante da loucura, da miséria, da pior dor do mundo.
Me lembro de ter visto coisas assim num livro que não tem nada a ver com o papo, É isto um homem? livro de Primo Levi, conta seus dias de prisão em Auschwitz, alguns vão dizer que estou exagerando, mas não estou não, porque estou falando do sentimento que move a paixão do homem pela vida, e isso vai sempre exister em nós enquanto formos humanos, creio e boto fé.
Li A Rainha do Cinema Roma em poucos dias, chorei um bocado e sorri muito também. Tive interesse no livro quando estava no Sarau do Binho e o autor Alejandro Reyes, estava apresentando seu livro e contou um pouco do que o levou a escrever o livro e de sua vida. Foi um depoimento marcante pra mim, achei aquele cara de uma coragem, fiquei numa admiração que só vendo. O livro é um tanto biográfico, mas não sei até onde vai isso. Vale muito apena ler!!!

18 de janeiro de 2011

Zé Sarmento

Publicado no Blog do Zé Sarmento


Meus camaradas das quebradas, este livro é o máximo.O escritor mexicano Alejandro Reys que conheci no sarau da cooperifa,está me levando a viajar pela cidade de Salvador e sentir-me cada vez mais com nojo da sociedade excludente.Personagens sofridos, esquecidos, desqualificados pela sociedade abastada, que exprimem seus sentimentoe e emoçoes a flor da pele para ver se se entende como gente.Ainda tou em menos da metade do livro, mas sei que logo ele me levará a última página.É imperdível a "Rainha do Cine Roma", uma pancada nos culhões, uma facada no abdomêm, uma paulada na cebeça!

4 de novembro de 2010

Bate-papo com Marclino Freire y Ferréz

Conversa literária


Os autores Marcelino Freire (Prêmio Jabuti de Literatura, em 2006, na categoria contos), Alejandro Reyes (escritor mexicano, que vive no Brasil desde 1995, e é mestre em Estudos Latino-Americanos) e Ferréz (romancista, contista e poeta que tem como tema principal a periferia das grandes cidades) se reúnem para um bate-papo literário no Centro Cultural b_arco. Após o encontro, Alejandro Reyes vai autografar o romance “A Rainha do Cine Roma” (Editora Leya).
serviço
o quê: Bate papo com Marcelino Freire, Alejandro Reyes e Ferréz
quando: 4 de novembro, às 19h30
onde: Centro Cultural b_arco
endereço: Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros
telefone: (11) 3081-6986
entrada: gratuita
informações: http://www.obarco.com.br/

3 de novembro de 2010

A Rainha no Soterópolis

Publicado no Blog do Soterópolis.

Como falar das ruas e suas crianças abandonadas sem cair nos clichês? Este, suponho, deve ter sido o maior questionamento do escritor Alejandro Reyes ao se debruçar sobre esta realidade.

Mexicano, ativista social, participou do movimento zapatista, rodou pelo mundo e aportou em Salvador. Aqui, foi fisgado pela beleza do lugar e pela pobreza revelada em muitos cantos da cidade.

No livro A Rainha do Cine Roma, primeiro romance de Reyes, o escritor cria para si o maior dos desafios: escrever sobre uma realidade desconhecida, pois não pode negar a sua condição de estrangeiro, e narrar os acontecimentos a partir de um lugar de fala de um garoto de rua.

“Enfim, pra mim foi um desafio superar a fronteira lingüística por que sou mexicano, o português não é a minha primeira língua e estou escrevendo usando a linguagem das ruas. O meu grande desafio foi pegar esta linguagem e fazer alguma coisa literária com ela” explica.

O romance, nascido nas ruas da cidade de Salvador, teve a sua primeira tiragem lançada em Portugal no ano de 2009. É lá que Alejandro é contemplado com o prêmio Leya, importante por dar visibilidade aos escritores independentes. Somente em 2010, o livro é lançado em Salvador.

Deslizando num terreno perigoso, onde muitos e importantes escritores já se aventuraram, ele afirma que é preciso ter coragem para falar deste mundo. Na sua literatura há espaço para falar do tempo presente, de uma realidade híbrida, onde as rupturas das divisões rígidas de papéis sociais não cabem mais.

Homem das letras engajadas, o escritor sabe que a literatura deve ter um comprometimento com a realidade social, sem levantar bandeiras, mas sem deixar de ter uma função social que é “fazer questionar sobre coisas que muitas vezes não vemos, e, nesse caso, o Rainha do Cine Roma levanta questões sobre uma população invisibilizada pela sociedade” encerra.

Ficha Técnica:
Título: A Rainha do Cine Roma
Autor: Alejandro Reyes
Formato: 16×23 Brochura
Nº de páginas: 296
Preço: R$ 39,90
Clique aqui para comprar o livro.

2 de novembro de 2010

Lançamento no Sarau Bem Black - Salvador

Publicado em Gramática da Ira


A Rainha do Cine Roma
do mexicano Alejandro Reyes

O romance "A rainha do Cine Roma" traz a história de Maria Aparecida e Betinho, crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono.

Robson Véio, Alejandro Reyes e eu (Nelson Maca)

Passamos alguns dias muito bacanas com Alejandro Reyes, incluindo visitas ao Sarau Bem Black e ao ensaio do grupo Este Tal Recital (Sarau Bem Legal). Lançamos o livro "A rainha do Cine Roma" num clima altamente positivo que contou com a exibição do documentário "A música é a arma" - sobre o nigeriano Fela Kuti - e também um bate papo emocionante sobre zapatismo e processos de autonomia social com o próprio Alejandro e com nosso irmão Robson Véio.

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Alejandro Reyes & Claudia (México)com crianças do grupo Este Tal Recital (Sarau Bem Legal)

Agora, o romancista está em São Paulo. Amanhã ele lança "A rainha..." no templo da Cooperifa, com meu grande amigo Sérgio Vaz e seus warriors. Na quinta participa de evento ao lado de Marcelino Freire e depois na Suburbano Convicto do Bixiga (com o Buzo, Marilda e Tubarão... só gente boa e nossa!)

É isso: uma corrente difícil de quebrar!

Com Respeito,
Nelson Maca - Blackitude.Ba

A Rainha no Sarau da Cooperifa

QUARTA-FEIRA É DIA DE SARAU DA COOPERIFA


"O Sarau da Cooperifa é quando a poesia desce do pedestal
e beija os pés da comunidade. "
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Sergio Vaz
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SARAU DA COOPERIFA
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Lançamento do livro
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"A Rainha do cine Roma"
do mexicano Alejandro Reyes
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Quarta-feira 3 novembro 20hs45
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Bar do Zé Batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797
Periferia-SP
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*O romance A Rainha do Cine Roma
A Rainha do Cine Roma traz a história de Maria Aparecida e Betinho, crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono

25 de outubro de 2010

Sarau Bem Black lança livro do mexicano Alejandro Reyes

Publicado em Gramática da Ira
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Noitada no Sankofa African Bar, na quarta (27/10),
terá debate, exibição de doc. de Fela, muita poesia
e a música de Jimi Hendrix


O escritor mexicano Alejandro Reyes lança o livro A Rainha do Cine Roma (LeYa) na próxima quarta (27/10) durante edição especial do Sarau Bem Black, evento do Coletivo Blackitude que acontece todas as quartas, no Sankofa African, Pelourinho. O autor, que morou em Salvador na década de 90, volta à cidade para apresentar seu primeiro romance, cuja trama se passa nas ruas de cidade e explora o cotidiano de meninos de rua, assunto com o qual se tornou familiar a partir da experiência de trabalho com menores em situação de risco. O livro será vendido por R$ 25, 00 durante o evento.

Além da sessão de autógrafos, Alejandro participa de bate papo e é convidado especial do Sarau Bem Black. A programação, gratuita, começa às 18h, com exibição do documentário “A Música é a Arma” sobre o músico e ativista nigeriano Fela Kuti. Após o filme, que será comentado por Nelson Maca, Alejandro Reyes fala sobre o movimento mexicano zapatista: suas ações revolucionárias indígenas e suas propostas para a construção de uma nova sociedade. Também participa do papo o ativista político e músico Robson Véio (ex-Lumpen), que traz a conversa para esferas cotidianas e locais através de suas experiências em iniciativas como o Passe Livre e Mídia Independente.

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Das 20h30min às 22h, o Sarau Bem Black segue a normalidade de sempre: abertura com os rappers Rone Dundum & Lázaro Erê , do grupo de Opanijé, com a música Encruzilhada, cujas imagens e sons referências a Exu abre os caminhos da noitada poética. Na sequência, sobem no tablado as poetas mirins Luiza Gata e Lucinha Black Power, além de outras crianças do grupo Este Tal Recital, convidadas especialmente para receber o romancista Alejandro Reyes.

Por fim, Nelson Maca, Iara Nascimento e Lázaro Erê, mestres cerimônia do sarau, declamam e abrem os microfones aos poetas da platéia, um dos momentos mais esperados e surpreendentes da noite. Ao final, Lázaro Erê e Rone & Dundum fecham a noite com mais um rap autoral. Tudo isso será introduzido, comentado e ambientado pelas vinhetas musicais do DJ Joe que, a cada evento, homenageia um artista ou grupo da música negra. Nessa edição especial, o escolhido é o norte-americano Jimi Hendrix.


O romance A Rainha do Cine Roma

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A Rainha do Cine Roma traz a história de Maria Aparecida e Betinho, crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono.

A narrativa do livro é feita em primeira pessoa, através de Betinho. Morador de rua desde os sete anos - sobrevivendo de pequenos furtos e michês – ele fugiu de casa para escapar da violência imposta por seu padrasto. Vagava pelas ruas da Cidade Baixa, sempre sozinho, até se deparar com Maria Aparecida, uma pequenina e frágil garota de dez anos que sofre uma drástica mudança na vida após a morte da mãe e decide fugir de casa. Vítimas de abusos por parte dos pais, Maria Aparecida e Betinho passam a viver em um cinema abandonado: o Cine Roma. E, apesar de todo o suplicio que lhes é imposto, os dois constroem um forte laço capaz de resistir a tudo.

Reflexões sobre temas negligenciados pela sociedade, como abuso sexual, drogas, homossexualidade, AIDS, prostituição, preconceito racial, violência física e o abandono estão presentes nas 296 páginas do livro. Chama atenção dos leitores para um universo sujo e cruel, que é imposto àqueles que estão, desde muito cedo, às margens da sociedade. A Rainha do Cine Roma retrata a vida de quem vive nas ruas, o submundo ignorado pela população de “bem” e pelos governantes. É uma bela história sobre a esperança de duas crianças, maltratadas pela vida e pela circunstância, mas que nunca deixaram de acreditar que, um dia, poderiam ser amadas de verdade.


Bate-papo

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O lançamento do romance será antecedido de um bate-papo sobre as razões e ações do movimento zapatista e da autonomia possível nas práticas sócio-culturais cotidianas. A mesa contará com Alejandro Reyes (Chiapas-México), Robson Véio e Nelson Maca (Salvador). “A idéia é fazer uma síntese histórica do afrobeat e da atuação política de Fela Kuti, um panorama do movimento zapatista, sobretudo frisando como ele se torna uma revolução interna que redimensiona a esquerda tradicional graças ao componente indígena, e também com se dissemina pelo mundo”, explica Nelson Maca. Todos falam de experiências vinculadas numa rede cada vez mais ampla de resistência contra o sistema capitalista. Serão lembradas propostas e práticas de autonomia em territórios em rebeldia - construção de sistemas autônomos de educação, saúde, governo, justiça, mídia, arte, produção e comércio. Questões étnicas e identitárias, sem dúvida, serão a base das ações e reflexões da noite.


SERVIÇO

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Evento: Sarau Bem Black
Quando: quarta-feira (27/10), das 18 às 22h
Onde: Sankofa African Bar (Pelourinho)
Entrada franca

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Alejandro Reyes

Alejandro Reyes nasceu na cidade do México, é jornalista e escritor. Depois de viver nos Estados Unidos e na França, mudou-se para o Brasil, onde trabalhou com crianças e adolescentes. É mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade da Califórnia e doutorando em Literatura Latino-Americana, com tese sobre a literatura marginal. É ativista e membro do coletivo de mídia alternativa Rádio Zapatista.

Robson Véio

Artista vegan e produtor cultural, teve suas primeiras experiências culturais ainda em tenra idade no bairro onde morava, Castelo Branco, onde organizava almoços coletivos, campeonatos esportivos, sessões de filmes, fanfarra, festas etc... Já realizou turnê por vários estados brasileiros fazendo palestras e tocando em eventos de grande relevância dentro da cena independente como o Festival Hardcore, a Verdurada, Carnaval Revolução, a ocupação Chiquinha Gonzaga etc... Atualmente escreve para seu blog pessoal além de atuar nos Coletivo Arterisco, Blackitude, Positivoz, no Sindicato dos Comerciários de Salvador e prepara-se para gravar seu primeiro trabalho solo baseado na linguagem do RAP.

Contatos: blackitude@gmail.com

15 de outubro de 2010

Perdidos

Publicado em: Blog de Leonardo Sodré

Paulo Correia
Jornalista
ph-correia@uol.com.br

“Mas você me prometeu que pagaria um churrasco”. Essa frase eu ouvi faz uns três anos, em uma das edições do Carnatal. Ouvi quando estava saindo do corredor da folia, acompanhado de alguns amigos, e foi dita por uma garota que deveria ter no máximo nove anos. Estava suja, com os cabelos desgrenhados e usava uma camisa que cobria o seu corpo inteiro. Ela cobrava o churrasco de um homem de uns 35 anos, vestido com um abadá e que estava muito constrangido pela forma como a menina cobrava. Ele resmungava e dizia que não devia nada para ela, que ela fez porque quis. Esse momento nunca saiu da minha cabeça. Lembrei dele quando terminei a leitura de A Rainha do Cine Roma.
Escrita por Alejandro Reyes, um mexicano que desde 1995 vive em Salvador, a publicação conta a história de Betinho e Maria Aparecida, duas crianças que desde muito cedo sentiram na pele os absurdos da vida. Foram espancados pelos pais e padrastos, violentados sexualmente em suas casas, e tiveram que fugir desse mar de lama para tentarem não enlouquecer. Com a fuga, passam a viver nas ruas de Salvador.
Circulando entre o centro e a Cidade Baixa, vão encontrando tipos que toda cidade possui: os bêbados, as prostitutas, os travestis, os policiais espancadores, as doenças, e o pior de todos os males: a indiferença da população. Crescem nesse meio insalubre, aproveitando tudo o que a vida pode oferecer tanto para o lado negativo como para o positivo. A passagem dos anos é observada não pelo número de páginas viradas, mas pelo sofrimento que a metrópole lhes causa.
O livro, lançado no final de setembro, é um verdadeiro soco no estômago dos desavisados, mas um retrato fiel da juventude que mora nas ruas e que luta para manter a dignidade em meio a tanta sujeira e misérias da sociedade. Uma obra que merece a atenção de todos nós.
Uma obra que fala de tudo. De sexo, drogas, de AIDS, de amizades verdadeiras, de mesquinharias, de alegrias e tristezas. Que retrata uma Salvador onde os Capitães da areia se multiplicaram. Mas acima de tudo, que exibe a força do ser humano. Um livro que mostra que o amor e o carinho ainda conseguem viver.
Fica a dica de canto de página: A Rainha do Cine Roma

10 de outubro de 2010

A ponte entre o humano e a condição de animal

Publicado no Diário do Nordeste


O espaço dos grandes centro urbanos, como abrigo às transgressões sociais, de há muito já se inscreve nos diversos gêneros, quer da prosa, quer da poesia. A partir do surgimento da literatura moderna, isso se fez presente com mais intensidade, o que, de certa forma, contribuiu para dissolver certas crenças em paz e bem-estar

O foco narrativo é conduzido em primeira pessoa, a internalização da leitura da trama se justifica plenamente por estar ela entregue a um dos protagonistas, Betinho - já morava na rua desde a tenra idade de sete anos, alimentando-se de pequenos furtos até o embate com coisas mais terríveis. Até que conheceu, também nos cenários das ruas, Maria Aparecida - uma frágil menina que, aos dez anos, após a morte da mãe, decide fugir de casa, uma vez que, antes, sofre abusos sexuais no espaço doméstico. Eles - os protagonistas - passam a ocupar um cinema abandonado: O Cine Roma; passam, então, a corporificar aquela metáfora de Cruz e Sousa: "Os miseráveis e os rotos / são as flores dos esgotos". No entanto, mesmo com tanto suplício, são capazes, assim, de cultivar fortes laços.

Considerando as tendências por que se movem as narrativas de ficção na pós-modernidade, ainda que o ponto de vista interno seja, predominantemente, conduzido pela personagem Betinho, tal não implica ausência de inúmeras vozes narrativas, numa multiplicidade de focos:"Maria Aparecida falava uma coisa, falava outras, contava tudo quanto é história, a gente ficava sem saber o que era verdade e o que era invenção de sua cabeça." (p.22) Com isso, o narrador passa também a interagir com o falar dessa personagem, ao mesmo tempo em que, apanhando um episódio aqui, outro acolá, ora como que tece uma colcha de retratos, ora com que manuseia as pedras de um estranho quebra-cabeças, vai, pouco a pouco, construindo aquela personagem aos olhos do leitor, sempre com tintas precisas e fortes de realidade.

O espaço da trama é a cidade de Salvador, na Bahia, - e não como não fazer uma referência ao romance "Capitães d´Areia", de Jorge Amado, ainda que o tratamento do tema, a composição romanesca, a construção das personagens e, ainda, o manuseio da linguagem sejam absolutamente distanciados. Se em Jorge Amado, evolam-se momentos de lirismo, se sentimentos de comiseração, se certos alumbramentos se façam presentes, aqui, a linha é outra: frases incisivas, curtas, cruas, numa plena harmonia com a atmosfera a envolver os excluídos.

Uma nota que merece registro é, sendo o espaço uma cidade da Bahia, não faltam traços singulares à cultura do povo baiano, tanto relativos à culinária, ao vestuário, a crenças, ritos e mitos: "A noite está uma lindeza, a lua brilha lá no alto, iluminando a gameleira e a mangueira, e o riacho que passa por perto, e cá dentro tem bandeirolas e folhas e laços vermelhos e um bocado de filhos e filhas de santo vestidos com as roupas de Xangô, Iansã, Ogum, Oxu, Iemanjá". (p23) E não faltam os foguetes a iluminar as mais variadas iguarias da festa.

Nos tempos do "Cine Roma", eles vislumbravam uma vida de gente rica, abastada, embora não acontecesse muita coisa. Até já consideravam coisa muito grande que eles morassem em um castelo, sim, um castelo, ainda que fosse um castelo abandonado, fedido, cheio de ratos e de baratas, mas, enfim, um castelo, em nada parecido com aqueles barracos sustentados por papelão. Ainda mais podiam curtir a praia, os amigos, as aventuras pela cidade; as coisas somente não se imprimiam como uma maravilha dentro dos limites dessa maravilha, por conta dos acessos de loucura, de descontrole, que tomavam conta de Maria Aparecida - nessas ocasiões, quem sempre levava a pior era o narrador, a quem, com desdém, insultava-lhe a condição de homossexual e também de abandonado de todos.

Mais à frente, a trama sofre uma transformação, e os protagonistas vão, rigorosamente, enfrentar a vida nas ruas, agora na condição exata de pivetes. Ficaram quase um ano morando no largo do relógio de São Pedro, com a casa, agora, improvisada de papelão. Eles deixavam a vida correr, virando-se com pequenos delitos, a partir dos quais conseguiam alguns trocados para a comida. No entanto, muito conscientes de que a vida nas ruas é mesmo uma vida de cão: "De tanto o povo tratar a gente como bicho, a pessoa começa a achar que é bicho mesmo, começa a agir como bicho, fazer qualquer besteira sem pensar em mais nada". Atormenta-lhes a ausência da resposta: como não tornar-se realmente um bicho?" A trama mostrará.

CARLOS AUGUSTO VIANAEDITOR

28 de setembro de 2010

Obra retrata a realidade da vida nas ruas

Publicado em: Bahia Notícias

A editora LeYa lança “A Rainha do Cine Roma”, o primeiro romance do jornalista e escritor Alejandro Reyes. Uma comovente e fascinante história, que brilhou entre os finalistas do Prêmio LeYa em 2008 - evento que homenageia e estimula a produção de obras originais de ficção em língua portuguesa. O evento acontecerá nesta quinta-feira, dia 30/09, a partir das 18h30, na Praia dos Livros (Av. 7 de Setembro, 3564, loja 2 – Largo do Porto da Barra - Salvador).

9 de setembro de 2010

Debate e bate-papo marcam lançamento na UFSCar de romance escrito por jornalista mexicano

Universidade Federal de São Carlos

O romance "A rainha do Cine Roma" será lançado em São Carlos no dia 9 de setembro em evento que acontece na UFSCar. A obra é o mais recente trabalho do escritor e jornalista mexicano Alejandro Reyes, que reside em Salvador, desde 1995, após passar pelos Estados Unidos e França. O lançamento, com a presença do autor, será precedido de um debate com o professor Wilson Alves Bezerra, do Departamento de Letras (DL) da Universidade.

O mais recente livro de Reyes é ambientado em Salvador e tem o português como língua literária. O autor é mestre em Estudos Latino-Americanos e colabora em vários meios alternativos, reportando sobre movimentos sociais no México e Estados Unidos. Além do romance que foi escrito em 2008, o escritor mexicano publicou os livros de contos "Vidas de Rua", em 1997; "O Lacandón", em 1997; e "Contos Mexicanos", em 2004.

Na palestra "A linguagem do Cine Roma e seus deslocamentos", o professor Wilson mostrará o funcionamento da linguagem no romance, além de discutir o lugar da narrativa oral na literatura brasileira. O romance é narrado por Betinho, menino de rua desde os sete anos que conta, já adulto, suas aventuras e desventuras para sobreviver e suas tentativas de amar. Escrito em uma linguagem crua, o tom da narrativa oscila entre o agressivo e o sensível, produzindo um resultado bastante peculiar.

A palestra do professor Wilson e o bate-papo com o escritor Alejandro Reyes acontecem a partir das 17 horas, no Auditório do Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH) da UFSCar, localizado no edifício de aulas teóricas AT2, na área Sul do campus São Carlos. O evento é gratuito e aberto a todos os interessados, sem necessidade de prévia inscrição. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail espanhol.ufscar@gmail.com.

2 de setembro de 2010

Escritor mexicano Alejandro Reyes encontrou inspiração para livro na Bahia

Publicado em Correio Braziliense

Ronaldo Mendes

A RAINHA DO CINE ROMA Primeiro romance do escritor mexicano Alejandro Reyes.
Lançamento: Editora LeYa, 296 páginas. Preço médio: R$ 39,90

Reyes: 'Durante a escrita, passei horas andando pelas ruas, conversando com crianças, prostitutas e travestis' (Arquivo Pessoal
)
Alejandro Reyes levava uma vida com nível um pouco acima da realidade da maioria dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos. Tinha um emprego na área de informática e uma renda razoável. Mas algo não ia bem. Não era falta de dinheiro, o que ele precisava era de inspiração. Foi quando o inquieto escritor largou a aridez norte-americana e atravessou o Atlântico, onde ficou na Europa, “vivendo de trabalhos aqui e ali”. No entanto, não eram aquelas mesas de café nas ruas das cidades europeias que o inspirariam. Foi no clima tropical brasileiro que Alejandro se encontrou. “Nesse momento, tinha um romance fermentando na cabeça e quis procurar um lugar tranquilo para escrever. Escolhi a Bahia porque já tinha lido muito a respeito e tinha muito contato com o Brasil”, conta em entrevista ao Correio.

Era 1994. O plano inicial do escritor era permanecer pouco tempo, apenas o suficiente para terminar o livro. “Descobri na Bahia uma ressonância em mim... e terminei ficando uma década”. Por isso, quem lê a história de amizade, companheirismo, descobertas, dramas, perdas, violência e drogas presentes em A rainha do cine Roma, romance de estreia de Alejandro Reyes lançado pela editora LeYa, se impressiona com o preciosismo de cada cena descrita. “Durante a escrita, passei muitas horas andando pelas ruas, conversando com crianças, prostitutas e travestis”, lembra. “Por um lado, porque precisava entender melhor o submundo da noite, das drogas, da prostituição e do transexualismo. Por outro, porque escrevê-lo em primeira pessoa, na voz de um menino morador de rua, implicava num grande desafio linguístico.”

Submundo
A história de Betinho e Maria Aparecida é carregada de melancolia, mas também de uma alegria e esperança comuns às crianças. Com problemas familiares e sendo vítimas de estupro na própria casa, os dois vão parar na rua. Foi nesse ambiente escuso que eles se conheceram e onde se tornaram grandes amigos. O Cine Roma do título é um cinema abandonado onde os meninos vivem boa parte da trama. Nesse turbilhão, enfrentam traficantes, policiais, bandidos, moradores de rua e a exploração de cafetinas. Mas a narrativa de Alejandro não se limita às duas crianças. Personagens secundários aparecem e somem da trama, entrelaçando-se à história, que se passa numa Salvador talvez invisível aos olhos dos turistas — e até mesmo dos moradores. Retratar a pobreza com poesia, sensibilidade e, acima de tudo, mostrar o lado humano dessas pessoas é o grande mérito de A rainha do cine Roma.

Reyes: "Durante a escrita, passei horas andando pelas ruas, conversando com crianças, prostitutas e travestis"

Incrível também a capacidade que o escritor tem de “atravessar” as fases dos personagens centrais. Ao mesmo tempo em que conta a história das crianças, Alejandro passa ao leitor a sensação de que Betinho e Maria Aparecida envelhecem a cada página virada. Mas nada fora do contexto. Tornarem -se adultos, neste caso, não é obra da natureza, mas do meio em que vivem. Uma questão de sobrevivência.
Doutorando em literatura latino-americana com tese sobre a literatura marginal, Alejandro desenvolve diversos projetos ligados à área social. “A relação entre o ativismo e a literatura é complexa. Ambos implicam um compromisso com o nosso mundo e uma posição crítica perante a injustiça e a desigualdade”, defende. O escritor, no entanto, alerta para o risco de o trabalho ser visto de uma outra maneira. “Isso representa um risco para a literatura, que pode facilmente se tornar panfletária ou de bandeiras e punhos levantados”, analisa. Antes de A rainha do cine Roma, Alejandro havia lançado os livros de contos Vidas de rua e Contos mexicanos. Atualmente, o escritor vive no estado mexicano de Chiapas, desenvolvendo trabalhos com as comunidades indígenas.

TRECHO DO LIVRO
“Ficamos quase um ano morando no largo do relógio de São Pedro, nessa nossa casa improvisada de papelão, deixando a vida correr, se virando pra comer e ganhar uns trocados. Vida complicada nas ruas, sabe... Vida de cão. Mas, naquele tempo, a gente nem pensava muito na questão. Era o que era, só isso. Vide de pivete, vida de meninos de rua. A gente curtia, só fazia o que nos dava na telha e não tinha ninguém pra ficar dizendo o que podia ou não podia fazer. Mas passávamos por muita ruindade. Sempre ligados, sempre de olho pra ninguém fazer alguma merda com a gente, sempre com fome, sujos, fedidos. È coisa. E de tanto o povo ficar tratando a gente como bicho, a pessoa começa a achar que é bicho mesmo, começa a agir como bicho, fazer qualquer besteira sem pensar em mais nada. É o cão. Mas o mais difícil é ficar centrado, não perder a cabeça, não se meter em merda que não dá em nada que preste. É... o diabo é esse: como fazer pra não virar bicho. O resto... é resto...a gente vai driblando. Se conseguir não virar bicho...”

29 de agosto de 2010

Lançamento no Sarau do Binho

Publicado no blog do Sarau do Binho

LANÇAMENTO DO LIVRO "A RAINHA DO CINE ROMA" DE ALEJANDRO REYES

Nesta segunda 30-08-10 teremos a presença do escritor Mexicano Alejandro Reyes para lançamento de seu livro " A RAINHA DO CINE ROMA".



A Editora LeYa lança em agosto “A Rainha do Cine Roma”, o primeiro romance do jornalista e escritor Alejandro Reyes. Uma comovente e fascinante história, que brilhou entre os finalistas do Prêmio LeYa em 2008 - evento que homenageia e estimula a produção de obras originais de ficção em língua portuguesa.

“A Rainha do Cine Roma” traz a história de Maria Aparecida e Betinho, duas crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono.

A narrativa do livro é feita em primeira pessoa, na figura do personagem Betinho: morador de rua desde os sete anos - sobrevivendo de pequenos furtos e michês - fugiu de casa para escapar da violência imposta por seu padrasto. Vagava pelas ruas da Cidade Baixa, sempre sozinho, até se deparar com Maria Aparecida, uma pequenina e frágil garota de dez anos, que sofre uma drástica mudança na vida após a morte da mãe e decide fugir de casa.

Vítimas de abusos por parte dos pais, Maria Aparecida e Betinho passam a viver em um cinema abandonado: o Cine Roma. E, apesar de todo o suplicio que lhes é imposto, os dois constroem um forte laço capaz de resistir a tudo.

Reflexões sobre temas negligenciados pela sociedade, como abuso sexual, drogas, homossexualidade, AIDS, prostituição, preconceito racial, violência física e o abandono, estão presentes nas 296 páginas do livro. Chama atenção dos leitores para um universo sujo e cruel, que é imposto àqueles que estão, desde muito cedo, às margens da sociedade.

É uma bela história sobre a esperança de duas crianças, maltratadas pela vida e pela circunstância, mas que nunca deixaram de acreditar que, um dia, poderiam ser amadas de verdade.

“Surpreendente e intenso, terno e violento, A Rainha do Cine Roma é mais do que um romance para leitores exigentes: é um verdadeiro hino à vida”. José Manuel Saraiva

“Quem tiver peito fraco, é melhor não tocar neste livro. Porque ele é duro, cru, verdadeiro. No entanto, no fim fica um fiozinho de açúcar, emoldurando uma réstia de esperança.” Pepetela, escritor e membro do júri do Prêmio Leya


O Autor

Alejandro Reyes nasceu na cidade do México, é jornalista e escritor. Depois de viver alguns anos nos Estados Unidos e na França, mudou-se para o Brasil, onde fez trabalho social com crianças e adolescentes de rua. É mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade da Califórnia e doutorando em Literatura Latino-Americana, cuja tese incide sobre a literatura marginal.

21 de agosto de 2010

Narrativa do corpo e da fala

Publicado em O Estado de São Paulo

por Wilson Alves Bezerra

Saber como fala um personagem é haver descoberto um destino, dizia Jorge Luis Borges. A constatação é uma boa chave para ler o romance de estreia do mexicano Alejandro Reyes, A Rainha do Cine Roma, escrito em português. Houve um tempo em que 'dar voz' a personagens marginalizados implicava uma espécie de reconstrução fônica da fala que contrastava com a língua bem falada do narrador, em terceira pessoa, o 'estilo esquizofrênico', na definição de Antonio Candido. Aqui, a estratégia é outra: aquele que fala, e escreve, faz parte da história narrada - Betinho, um moleque de rua já crescido, que conta sua infância e adolescência em Salvador, dá voz à narrativa.

Para os leitores do Brasil, essa voz tem sabor exótico: a cadência de oralidade proposta, além do registro da fala nordestina, traz elementos da sintaxe do espanhol - língua materna do autor -, resultando em expressões algo inesperadas ('morrer feita churrasco', por exemplo). A impressão é a de uma língua inventada, que lhe rendeu o segundo lugar no prêmio do grupo português LeYa, em 2008.

O maior mérito do livro é a reconstrução testemunhal da vida de rua do pequeno grupo de crianças nordestinas enjeitadas: do momento de sua saída, ainda na infância, da casa familiar à inserção no meio marginal. A narrativa de Reyes privilegia as dificuldades de sociabilidade das crianças no meio inóspito no qual contam, antes de tudo, com o próprio corpo como meio de sobrevivência e subsistência: na mendicância, nas lutas e na prostituição. O sexo surge ainda na infância, sob a forma de abuso do pai ou padrasto, e se torna a forma privilegiada de oferecer-se aos olhos do outro - adulto, estrangeiro, bem-sucedido - disposto a gozar (em todos os sentidos) de um corpo disponível, e dar a ele algum estatuto no grupo social. O próprio narrador se compraz, em alguns momentos, em colocar o leitor na condição de voyeur.

Nesse sentido, o livro é a narrativa dos corpos, nas diversas descrições de atos sexuais, incestuosos, homossexuais, grupais. Um dos personagens principais da trama é ele próprio um travesti, que procura na metamorfose física uma sorte de identificação consigo mesmo, completude e reconhecimento exterior, nunca encontrados. Interessante o Brasil marginal visto por este olhar, que recusa a síntese, e falado por vozes vacilantes, de destino incerto.

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTE DE LETRAS DA UFSCAR, TRADUTOR E AUTOR DE REVERBERAÇÕES DA FRONTEIRA EM HORACIO QUIROGA (HUMANITAS/FAPESP)

26 de julho de 2010

Homossexualidade e abandono são tema de romance em Salvador

 Publicado em Mix Brasil - Cultura GLS

Salvador é cenário para novo livro de Alejandro Reyes sobre homossexualidade e preconceito

A Salvador de todos os santos e desigualdades sociais é o cenário de “A Rainha do Cine Roma”, escrito pelo mexicano Alejandro Reyes-Arias e que conta a história de um menino e uma menina que, desde muito cedo, se deparam com a realidade de que a vida não é um sonho. Nesse caminho, prostituição, homossexualidade, preconceito, AIDS e violência estão sempre presentes.

Uma das finalistas do Prêmio LeYa em 2008, a obra é toda narrada em primeira pessoa por Betinho, que foge de casa para se livrar de um padrasto violento e cai no mundo das ruas para viver de pequenos roubos e programas sexuais. Já de cara o autor traz à tona temas nem sempre abertamente discutidos pela sociedade, assuntos jogados de lado para serem esquecidos.

Mas Alejandro não os esquece e coloca ainda no romance de 296 páginas Maria Aparecida, uma menina que surge na vida de Betinho enquanto ele vaga pela decaída Cidade Baixa. Ela também foge de casa por causa da violência, inclusive sexual. A situação nada boa une os dois com laços fortes o bastante para que eles possam enfrentar essa vida mais do que real.

20 de outubro de 2009

7 Leitores: A Rainha do Cine Roma

Publicado em http://7leitores.blogspot.com/2009/10/rainha-do-cine-roma_20.html


Pepetela afirma a pópósito:

"Quem tiver peito fraco é melhor nao tocar neste livro Porque ele é duro, cru, verdadeiro No entanto, no fim, fica um fiozinho de açúcar, emoldurando uma réstea de esperança."

De facto, "A rainha do Cine Roma" é um mergulho no lado mais negro da humanidade. salvador da Baía, prostituição infantil, álcool, droga, roubo, violência, estupro, transexualidade, corrupção dos que mandam, miséria levada até ao extremo, abandono, tremenda solidão.

Sabemos que o autor, mexicano a viver no Brasil, faz trabalho social com crianças e meninos de rua

Todo o livro, que é uma espécie de "Capiães da areia" do tempo do crack, ferve, amachuca-nos, arrepia-nos, faz-nos conviver dificilmente, dolorosamente, com uma realidade assustadora.

O Pepetela tem mesmo razão: "Quem tiver peito fraco..." No entanto, como também ele diz, ao lado da desesperança mais completa há sempre um fio de humanidade, uma luzinha ao fundo do túnel, a perspectiva positiva deixada por um escritor que acredita que, apesar de tudo, a vida ainda vale a pena e todos temos uma reserva de generosidade que pode sair cá para fora até nas piores circunstâncias.

É claro que o autor tem tanta e tão suja realidade para verter na sua escrita, que por vezes se esquece de se vigiar e de se conter. Repete-se, torna-se previsívelm aqui e ali, quase melodramático. No entanto, pergunto-me eu se é possível fugir às teias do melodrama quando tratamos da miséria moral absoluta, essa miséria que sustentou o desencolvimento desse estilo literário que teve seguidores tão respeitáveis como Zola ou Vítor Hugo.

Afinal, 150 anos depois, o capitalismo, na sua versão neo-liberal, mantém grandes bolsas de miséria pelo mundo fora e, por mais que se negue o papel da literatura na denúncia dessa miséria, os que como Reyes contactam com ela e tentam salvar dela alguns seres humanos, têm todo o direito e, se calhar, têm todo o dever de fazer da literatura um campo de batalha onde se luta por um mundo um poucochinho melhor.

A ternura e a solidariedade que o romance nos oferece ou nos promete é uma janela aberta, uma janela bem mais habitável que o retrato horrível que da Índia nos dá, por exemplo, em "O Tigre Branco", o premiado escritor indiano Aravid Adiga, onde parece não haver qualquer resto de esperança na humanidade.

10 de outubro de 2009

As vidas sem muros em ruas fortificadas

Publicado no Jornal A Tarde (mais temporada de patos)





Milena Britto[1]

“Tá, rapaz, calma, você não agüenta nada, não é só porque eu estou enchendo seu saco que você vai fechar o livro! O que acontece é que nós somos todos uma bosta, eu, você, o mundo todo, e se você não entende isso, você não tá com nada.”

Quem fala é Betinho, o narrador do romance A rainha do Cine Roma do mexicano-‘baiano’ Alejandro Reyes, finalista do prêmio Leya e publicado em Portugal pela Oficina do Livro. Ao longo do livro, Betinho, jovem morador das ruas de Salvador, interpela o leitor e o sacode do seu conforto, envolvendo-o diretamente nos dilemas éticos e existenciais, enquanto conta (com raiva, com ironia, com humor, com desespero, com ternura) a sua própria história e a de Maria Aparecida, também menina que vive na rua. A violência, o desamparo, o abuso sexual, a fome, as drogas, a prostituição, o desespero – e também o amor, a esperança e a dignidade – cobram vida nessas e noutras personagens das ruas, das favelas e do submundo da noite de uma cidade do Salvador que se transforma, ela própria, em personagem.

Seria fácil dizer que o romance é “um retrato da realidade como ela é”: a denúncia de um mundo fraturado pela desigualdade e o desvendamento de um universo ignorado. Mas o próprio Betinho desmancha a noção de verdade e a própria capacidade de narrar a realidade alheia: “Sei lá se o que vou contar aqui é verdade, vai ver que não foi nada disso, vai ver que não sei coisa nenhuma e não deveria nem estar falando”. O questionamento é duplamente interessante se considerarmos que o autor (que se apropria da voz de Betinho para falar desse mundo), não só não é menino de rua: não é brasileiro e nem mesmo o português é sua língua materna.

Assim, o autor desconstrói de antemão a tentação de uma leitura fácil como um romance de denúncia social ou de preocupação etnográfica, desafiando, desmanchando e repensando fronteiras com o fazer literário. O romance é, em muitos sentidos, um livro justamente sobre fronteiras. As fronteiras da linguagem (a escolha de um narrador de rua implica numa linguagem dura, colorida, cadenciosa, cheia de gíria e da inventividade popular). As fronteiras de gênero, onde a sexualidade se manifesta numa subversão constante das categorias estabelecidas (um ponto fundamental no romance é a exploração sensível da manifestação do desejo, da sexualidade e do amor fora dos padrões e a fluidez das categorias de gênero). As fronteiras raciais, sempre presentes por baixo da aparente malemolência da suposta democracia racial. E as fronteiras de classe. São estas últimas as que, no romance, se manifestam menos permeáveis, fraturas quase intransponíveis pelos personagens que, quando tentam atravessá-las, iniciam uma queda vertiginosa de decadência.

Título: A rainha do Cine Roma
Autor: Alejandro Reyes
Editora: Oficina do Livro
Preço: 13.50 euros

[1] Doutora em Literatura Brasileira e professora da UFBA.

Publicado no jornal A tarde, 26/09/2009

7 de setembro de 2009

A Rainha do Cine Roma: o drama dos meninos de rua do Brasil

Publicado em: Anjos e Guerreiros


“A Rainha do Cine Roma”, do mexicano Alejandro Reyes, da editora Oficina do Livro, comprova até onde a desgraça humana pode chegar.
Numa Salvador da Baía que de turística não tem nada, vivemos a dura realidade dos meninos de rua do Brasil. O livro foi finalista do Prêmio Leya.

O escritor angolano Pepetela, que fez parte do júri do Prêmio Leya, deixa o recado para o eventual leitor de “A Rainha do Cine Roma”: “Quem tiver peito fraco, é melhor não tocar neste livro. Porque ele é duro, cru, verdadeiro”. A realidade aqui não é portanto uma metáfora, pelo contrário, é apresentada sem subterfúgios e sem medo das palavras.

Alejandro Reyes, natural do México, morou nove anos em Salvador da Baía, no Brasil. Para contar a história dos meninos de rua conviveu alguns meses com os mesmos. E é essa vivência que o mexicano nos dá a conhecer pela voz de um dos protagonistas de “A Rainha do Cine Roma”, Betinho, o narrador da história, um narrador que por diversas vezes nos interpela ao longo da narrativa, procurando assim nos aproximar do seu drama.

Betinho, homossexual assumido, é a voz das ruas de Salvador, uma voz que não segreda nada, pelo contrário, é uma voz que grita o terror de uma vida no mínimo indigna, uma vida que coloca constantemente Deus em xeque.

Prostituição infantil, drogas, exploração sexual, pedofilia, pais que violam filhas, filhas que terminam com as vidas dos pais. Os horrores são inúmeros e Reyes não poupa ninguém, revelando um drama que para muitos é completamente desconhecido, mas infelizmente bastante real para a dignidade humana.
Betinho apaixona-se por Maria Aparecida e juntos têm uma relação de irmãos, amigos, namorados e amantes. É através dos dois que sabemos como é a vida dos meninos de rua do Brasil; é através deles que Alejandro Reyes constrói o seu romance, que tem a particularidade de ser escrito como se estivéssemos em plena Salvador, já que o mexicano resolveu escrever o seu livro utilizando a linguagem que os meninos de rua utilizam no seu dia a dia.

“A Rainha do Cine Roma” tem como principal problema os sucessivos infortúnios de Betinho e Maria Aparecida, que acabam por sofrer na pele as várias histórias que Reyes teve conhecimento quando fez o seu trabalho de campo. Em diversos momentos a esperança de uma vida melhor esvai-se e isso acaba por retirar ritmo ao livro. Mas esse pormenor não retira mérito a obra, pelo contrário. Antes de tudo Reyes pretendeu mostrar o drama dos meninos de rua. E conseguiu, sem dúvida, mostrando ao mesmo tempo que a indiferença não pode continuar.

4 de agosto de 2009

Retrato da rua sem anestesia



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Retrato da rua sem anestesia


Pepetela chamou-lhe um livro “duro, cru, verdadeiro”, impróprio para peitos fracos. Estava a falar de A Rainha do Cine Roma, primeiro romance de Alejandro Reyes e um retrato de dois meninos de rua no Brasil. Ana Dias Ferreira falou com o autor
 

Pepetela chamou-lhe um livro “duro, cru, verdadeiro”, impróprio para peitos fracos. Estava a falar de A Rainha do Cine Roma, primeiro romance de Alejandro Reyes e um retrato de dois meninos de rua no Brasil. Ana Dias Ferreira falou com o autor Alejandro Reyes, natural do México, morou nove anos em Salvador da Baía, no Brasil. Num deles, enquanto carburava num primeiro romance, o jornalista mergulhou na noite e nas ruas, apanhando o calão, as asneiras e as histórias – quase todas horríveis – das pessoas que ia encontrando. Nessa altura, Reyes já trabalhava com organizações de assistência social a meninos de rua, e lá pelo meio decidiu: o seu livro tinha de ser escrito pelo ponto de vista de um desses meninos. Chamou-lhe A Rainha do Cine Roma.
O romance, que chega a Portugal através da Oficina do Livro e foi finalista ao Prémio Leya, é um retrato duro e ao mesmo tempo comovente de duas crianças sem tecto: Betinho, o narrador, e Maria Aparecida. Entre os muitos temas tratados está a prostituição infantil, a homossexualidade e Deus.
Qual a história mais chocante que conheceu no Brasil?
Foram tantas… No romance há uma menina, a Perereca, que está cadavérica e acabada com crack, e ela é inspirada numa criança que conheci de facto, um menino de rua de quem me tornei amigo. Eu deixei de frequentar o centro da cidade durante um ano e quando voltei ele estava assim, não me reconhecia, estava cadavérico do vício da droga, andava correndo atrás dos turistas procurando dinheiro, não era mais ele. Outro aspecto da personagem Perereca, quando ela é violentada por dois polícias porque não quer fazer sexo oral de graça, também é uma história que escutei nas ruas. Há outras muito duras de crianças que fogem. Uma menina me contava que fugiu de casa aos seis anos porque o pai a violentava. E eu ficava tentando imaginar como é que aos seis anos a gente pode fazer uma decisão deste tamanho.

Nota-se que o livro é escrito por alguém que esteve no meio dessa realidade. É por isso que ele é tão real e tão duro?
Quando comecei a escrever o romance, um dos grandes desafios era como aproximar o leitor desta realidade. Passei um mês a tentar escrever o primeiro capítulo, a tentar achar uma voz narrativa. Finalmente, decidi ir por um caminho bastante difícil: ser um dos meninos de rua, o Betinho, o narrador. Portanto, o livro tinha de conter muito dessa linguagem de rua, muito mais dura e com a qual eu não cresci. Havia um desafio linguístico, e para poder incorporar essa linguagem passei muitos dias e noites caminhando pelas ruas e falando com as pessoas.

O narrador conta a história mas também interpela o leitor.
Há uma cena, quando a Maria Aparecida vai fazer sexo numa casa de massagens pela primeira vez, em que ele pergunta: e agora o que é que você quer? Quer que eu conte como foi para quê? E coloca ao leitor a questão do horror.

Nessa parte do livro ele acusa- nos de sermos um nojo. Tornámo-nos indiferentes?
Existem dois problemas retratados nessa cena. Um é a indiferença, que atravessa o romance, o outro é a cumplicidade e o atractivo pelo horror. Nessa cena, o que ele está a interperlar é o facto de que todos temos um potencial de horror, que de alguma forma tentamos conter, mas que “explode” no submundo das ruas. Falando da indiferença, o que me surpreende não é tanto o horror mas a capacidade de vivermos no meio dele sem enlouquecer. Hoje, nas grandes metrópoles – e na América Latina isso é muito claro – estão-se a construir muralhas para separar as classes sociais, muros físicos ou virtuais que nos dividem e nos impedem de ver o outro. Isso está a criar uma quantidade incrível de problemas, dos quais quem mais sofre é quem está lá em baixo.

A literatura é uma forma de lidar com o horror?
Sim. Para um escritor é uma espécie de catarse, uma forma de tentar ver de modo diferente e de transformar o horrível em algo bonito. Ao mesmo tempo – e sem ser a salvação do mundo – tem o potencial de rachar essas muralhas e criar pequenas janelas através das quais podemos ver o outro, e talvez assim sensibilizar quem lê.

O Brasil do livro é o de Salvador da Baía, que já estava presente noutro conto seu. Salvador é a sua cidade do coração?
É. Eu cheguei na Baía em 1995 e fiquei completamente deslumbrado pela cidade. A Baía tem algo muito poderoso que é a convivência entre a coisa mais sórdida e a mais bela do mundo. Contém o pior e o melhor do ser humano, ao mesmo tempo. Tudo está à flor da pele. Isto tem a ver com a própria história de Salvador, que foi o lugar com mais importação de escravos africanos. É uma região muito pobre, com diferenças sociais terríveis e um racismo muito forte, apesar do mito da democracia racial brasileira. É uma cidade muito forte e um material riquíssimo, que curiosamente não tem sido muito explorado na literatura recente. Explorou-se muito no modernismo, com o Jorge Amado, e agora parece que há um certo medo da parte dos escritores de chegar perto desse material. Como romper com a herança de Jorge Amado?

É verdade que foi para a Baía um bocadinho por causa dele?
Sim, na época me fascinou aquele mundo que ele descrevia nos romances. Só que quando cheguei lá dei-me conta de que já era outro mundo, igualmente mágico, mas outra realidade. Há uma tendência em Jorge Amado de idealização e folclorização que eu acho que é importante tentar quebrar, para falar do mundo que existe hoje. Estou a terminar um doutoramento em literatura latino-americana, e a minha tese é sobre a literatura marginal do Brasil. Há uma produção interessantíssima de autores que vêm das favelas, das periferias, ou até mesmo das prisões. É um fenómeno interessante porque conseguiu ter acesso ao mercado. Eu acho que esse tipo de literatura se escreve sempre, mas com o sucesso da Cidade de Deus, que foi escrito por Paulo Lins, que vem mesmo do bairro Cidade de Deus, houve uma abertura no mercado para esse tipo de literatura, que é espectacular.



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