19 de janeiro de 2011

Blog do Peu: A Rainha do Cine Roma

Publicado em Blog do Peu


Este livro pra mim é como um dos filmes do Felline, não acaba, ele continua, porque a própria vida não acaba, idependente da sua presença aqui ou não. Tudo continua como sempre continuou antes de vc chegar, e vai continuar depois de vc sair.
Pra quem gosta de tragédias gregas, taí boas estórias de tragédia dentro desse livro, uma mais macabra que a outra.
A dor, linha por linha, o flagélo humano, o homem nada, a esquina mais sórdida da sociedade. Haja coração...
No meio desse lixo todo, existe uma rainha, a Maria Aparecida é a Rainha do Cine Roma. Uma bela criança maltratada pela vida, durante todo seu caminho, maus tratos e humilhação. Contudo se você gosta de humanidade, não tenha medo, vá direto, talvez você se depare com os momentos mais humanos da sua vida, ali diante da loucura, da miséria, da pior dor do mundo.
Me lembro de ter visto coisas assim num livro que não tem nada a ver com o papo, É isto um homem? livro de Primo Levi, conta seus dias de prisão em Auschwitz, alguns vão dizer que estou exagerando, mas não estou não, porque estou falando do sentimento que move a paixão do homem pela vida, e isso vai sempre exister em nós enquanto formos humanos, creio e boto fé.
Li A Rainha do Cinema Roma em poucos dias, chorei um bocado e sorri muito também. Tive interesse no livro quando estava no Sarau do Binho e o autor Alejandro Reyes, estava apresentando seu livro e contou um pouco do que o levou a escrever o livro e de sua vida. Foi um depoimento marcante pra mim, achei aquele cara de uma coragem, fiquei numa admiração que só vendo. O livro é um tanto biográfico, mas não sei até onde vai isso. Vale muito apena ler!!!

18 de janeiro de 2011

Zé Sarmento

Publicado no Blog do Zé Sarmento


Meus camaradas das quebradas, este livro é o máximo.O escritor mexicano Alejandro Reys que conheci no sarau da cooperifa,está me levando a viajar pela cidade de Salvador e sentir-me cada vez mais com nojo da sociedade excludente.Personagens sofridos, esquecidos, desqualificados pela sociedade abastada, que exprimem seus sentimentoe e emoçoes a flor da pele para ver se se entende como gente.Ainda tou em menos da metade do livro, mas sei que logo ele me levará a última página.É imperdível a "Rainha do Cine Roma", uma pancada nos culhões, uma facada no abdomêm, uma paulada na cebeça!

4 de novembro de 2010

Bate-papo com Marclino Freire y Ferréz

Conversa literária


Os autores Marcelino Freire (Prêmio Jabuti de Literatura, em 2006, na categoria contos), Alejandro Reyes (escritor mexicano, que vive no Brasil desde 1995, e é mestre em Estudos Latino-Americanos) e Ferréz (romancista, contista e poeta que tem como tema principal a periferia das grandes cidades) se reúnem para um bate-papo literário no Centro Cultural b_arco. Após o encontro, Alejandro Reyes vai autografar o romance “A Rainha do Cine Roma” (Editora Leya).
serviço
o quê: Bate papo com Marcelino Freire, Alejandro Reyes e Ferréz
quando: 4 de novembro, às 19h30
onde: Centro Cultural b_arco
endereço: Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426 – Pinheiros
telefone: (11) 3081-6986
entrada: gratuita
informações: http://www.obarco.com.br/

3 de novembro de 2010

A Rainha no Soterópolis

Publicado no Blog do Soterópolis.

Como falar das ruas e suas crianças abandonadas sem cair nos clichês? Este, suponho, deve ter sido o maior questionamento do escritor Alejandro Reyes ao se debruçar sobre esta realidade.

Mexicano, ativista social, participou do movimento zapatista, rodou pelo mundo e aportou em Salvador. Aqui, foi fisgado pela beleza do lugar e pela pobreza revelada em muitos cantos da cidade.

No livro A Rainha do Cine Roma, primeiro romance de Reyes, o escritor cria para si o maior dos desafios: escrever sobre uma realidade desconhecida, pois não pode negar a sua condição de estrangeiro, e narrar os acontecimentos a partir de um lugar de fala de um garoto de rua.

“Enfim, pra mim foi um desafio superar a fronteira lingüística por que sou mexicano, o português não é a minha primeira língua e estou escrevendo usando a linguagem das ruas. O meu grande desafio foi pegar esta linguagem e fazer alguma coisa literária com ela” explica.

O romance, nascido nas ruas da cidade de Salvador, teve a sua primeira tiragem lançada em Portugal no ano de 2009. É lá que Alejandro é contemplado com o prêmio Leya, importante por dar visibilidade aos escritores independentes. Somente em 2010, o livro é lançado em Salvador.

Deslizando num terreno perigoso, onde muitos e importantes escritores já se aventuraram, ele afirma que é preciso ter coragem para falar deste mundo. Na sua literatura há espaço para falar do tempo presente, de uma realidade híbrida, onde as rupturas das divisões rígidas de papéis sociais não cabem mais.

Homem das letras engajadas, o escritor sabe que a literatura deve ter um comprometimento com a realidade social, sem levantar bandeiras, mas sem deixar de ter uma função social que é “fazer questionar sobre coisas que muitas vezes não vemos, e, nesse caso, o Rainha do Cine Roma levanta questões sobre uma população invisibilizada pela sociedade” encerra.

Ficha Técnica:
Título: A Rainha do Cine Roma
Autor: Alejandro Reyes
Formato: 16×23 Brochura
Nº de páginas: 296
Preço: R$ 39,90
Clique aqui para comprar o livro.

2 de novembro de 2010

Lançamento no Sarau Bem Black - Salvador

Publicado em Gramática da Ira


A Rainha do Cine Roma
do mexicano Alejandro Reyes

O romance "A rainha do Cine Roma" traz a história de Maria Aparecida e Betinho, crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono.

Robson Véio, Alejandro Reyes e eu (Nelson Maca)

Passamos alguns dias muito bacanas com Alejandro Reyes, incluindo visitas ao Sarau Bem Black e ao ensaio do grupo Este Tal Recital (Sarau Bem Legal). Lançamos o livro "A rainha do Cine Roma" num clima altamente positivo que contou com a exibição do documentário "A música é a arma" - sobre o nigeriano Fela Kuti - e também um bate papo emocionante sobre zapatismo e processos de autonomia social com o próprio Alejandro e com nosso irmão Robson Véio.

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Alejandro Reyes & Claudia (México)com crianças do grupo Este Tal Recital (Sarau Bem Legal)

Agora, o romancista está em São Paulo. Amanhã ele lança "A rainha..." no templo da Cooperifa, com meu grande amigo Sérgio Vaz e seus warriors. Na quinta participa de evento ao lado de Marcelino Freire e depois na Suburbano Convicto do Bixiga (com o Buzo, Marilda e Tubarão... só gente boa e nossa!)

É isso: uma corrente difícil de quebrar!

Com Respeito,
Nelson Maca - Blackitude.Ba

A Rainha no Sarau da Cooperifa

QUARTA-FEIRA É DIA DE SARAU DA COOPERIFA


"O Sarau da Cooperifa é quando a poesia desce do pedestal
e beija os pés da comunidade. "
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Sergio Vaz
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SARAU DA COOPERIFA
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Lançamento do livro
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"A Rainha do cine Roma"
do mexicano Alejandro Reyes
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Quarta-feira 3 novembro 20hs45
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Bar do Zé Batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797
Periferia-SP
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*O romance A Rainha do Cine Roma
A Rainha do Cine Roma traz a história de Maria Aparecida e Betinho, crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono

25 de outubro de 2010

Sarau Bem Black lança livro do mexicano Alejandro Reyes

Publicado em Gramática da Ira
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Noitada no Sankofa African Bar, na quarta (27/10),
terá debate, exibição de doc. de Fela, muita poesia
e a música de Jimi Hendrix


O escritor mexicano Alejandro Reyes lança o livro A Rainha do Cine Roma (LeYa) na próxima quarta (27/10) durante edição especial do Sarau Bem Black, evento do Coletivo Blackitude que acontece todas as quartas, no Sankofa African, Pelourinho. O autor, que morou em Salvador na década de 90, volta à cidade para apresentar seu primeiro romance, cuja trama se passa nas ruas de cidade e explora o cotidiano de meninos de rua, assunto com o qual se tornou familiar a partir da experiência de trabalho com menores em situação de risco. O livro será vendido por R$ 25, 00 durante o evento.

Além da sessão de autógrafos, Alejandro participa de bate papo e é convidado especial do Sarau Bem Black. A programação, gratuita, começa às 18h, com exibição do documentário “A Música é a Arma” sobre o músico e ativista nigeriano Fela Kuti. Após o filme, que será comentado por Nelson Maca, Alejandro Reyes fala sobre o movimento mexicano zapatista: suas ações revolucionárias indígenas e suas propostas para a construção de uma nova sociedade. Também participa do papo o ativista político e músico Robson Véio (ex-Lumpen), que traz a conversa para esferas cotidianas e locais através de suas experiências em iniciativas como o Passe Livre e Mídia Independente.

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Das 20h30min às 22h, o Sarau Bem Black segue a normalidade de sempre: abertura com os rappers Rone Dundum & Lázaro Erê , do grupo de Opanijé, com a música Encruzilhada, cujas imagens e sons referências a Exu abre os caminhos da noitada poética. Na sequência, sobem no tablado as poetas mirins Luiza Gata e Lucinha Black Power, além de outras crianças do grupo Este Tal Recital, convidadas especialmente para receber o romancista Alejandro Reyes.

Por fim, Nelson Maca, Iara Nascimento e Lázaro Erê, mestres cerimônia do sarau, declamam e abrem os microfones aos poetas da platéia, um dos momentos mais esperados e surpreendentes da noite. Ao final, Lázaro Erê e Rone & Dundum fecham a noite com mais um rap autoral. Tudo isso será introduzido, comentado e ambientado pelas vinhetas musicais do DJ Joe que, a cada evento, homenageia um artista ou grupo da música negra. Nessa edição especial, o escolhido é o norte-americano Jimi Hendrix.


O romance A Rainha do Cine Roma

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A Rainha do Cine Roma traz a história de Maria Aparecida e Betinho, crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono.

A narrativa do livro é feita em primeira pessoa, através de Betinho. Morador de rua desde os sete anos - sobrevivendo de pequenos furtos e michês – ele fugiu de casa para escapar da violência imposta por seu padrasto. Vagava pelas ruas da Cidade Baixa, sempre sozinho, até se deparar com Maria Aparecida, uma pequenina e frágil garota de dez anos que sofre uma drástica mudança na vida após a morte da mãe e decide fugir de casa. Vítimas de abusos por parte dos pais, Maria Aparecida e Betinho passam a viver em um cinema abandonado: o Cine Roma. E, apesar de todo o suplicio que lhes é imposto, os dois constroem um forte laço capaz de resistir a tudo.

Reflexões sobre temas negligenciados pela sociedade, como abuso sexual, drogas, homossexualidade, AIDS, prostituição, preconceito racial, violência física e o abandono estão presentes nas 296 páginas do livro. Chama atenção dos leitores para um universo sujo e cruel, que é imposto àqueles que estão, desde muito cedo, às margens da sociedade. A Rainha do Cine Roma retrata a vida de quem vive nas ruas, o submundo ignorado pela população de “bem” e pelos governantes. É uma bela história sobre a esperança de duas crianças, maltratadas pela vida e pela circunstância, mas que nunca deixaram de acreditar que, um dia, poderiam ser amadas de verdade.


Bate-papo

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O lançamento do romance será antecedido de um bate-papo sobre as razões e ações do movimento zapatista e da autonomia possível nas práticas sócio-culturais cotidianas. A mesa contará com Alejandro Reyes (Chiapas-México), Robson Véio e Nelson Maca (Salvador). “A idéia é fazer uma síntese histórica do afrobeat e da atuação política de Fela Kuti, um panorama do movimento zapatista, sobretudo frisando como ele se torna uma revolução interna que redimensiona a esquerda tradicional graças ao componente indígena, e também com se dissemina pelo mundo”, explica Nelson Maca. Todos falam de experiências vinculadas numa rede cada vez mais ampla de resistência contra o sistema capitalista. Serão lembradas propostas e práticas de autonomia em territórios em rebeldia - construção de sistemas autônomos de educação, saúde, governo, justiça, mídia, arte, produção e comércio. Questões étnicas e identitárias, sem dúvida, serão a base das ações e reflexões da noite.


SERVIÇO

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Evento: Sarau Bem Black
Quando: quarta-feira (27/10), das 18 às 22h
Onde: Sankofa African Bar (Pelourinho)
Entrada franca

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Alejandro Reyes

Alejandro Reyes nasceu na cidade do México, é jornalista e escritor. Depois de viver nos Estados Unidos e na França, mudou-se para o Brasil, onde trabalhou com crianças e adolescentes. É mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade da Califórnia e doutorando em Literatura Latino-Americana, com tese sobre a literatura marginal. É ativista e membro do coletivo de mídia alternativa Rádio Zapatista.

Robson Véio

Artista vegan e produtor cultural, teve suas primeiras experiências culturais ainda em tenra idade no bairro onde morava, Castelo Branco, onde organizava almoços coletivos, campeonatos esportivos, sessões de filmes, fanfarra, festas etc... Já realizou turnê por vários estados brasileiros fazendo palestras e tocando em eventos de grande relevância dentro da cena independente como o Festival Hardcore, a Verdurada, Carnaval Revolução, a ocupação Chiquinha Gonzaga etc... Atualmente escreve para seu blog pessoal além de atuar nos Coletivo Arterisco, Blackitude, Positivoz, no Sindicato dos Comerciários de Salvador e prepara-se para gravar seu primeiro trabalho solo baseado na linguagem do RAP.

Contatos: blackitude@gmail.com

15 de outubro de 2010

Perdidos

Publicado em: Blog de Leonardo Sodré

Paulo Correia
Jornalista
ph-correia@uol.com.br

“Mas você me prometeu que pagaria um churrasco”. Essa frase eu ouvi faz uns três anos, em uma das edições do Carnatal. Ouvi quando estava saindo do corredor da folia, acompanhado de alguns amigos, e foi dita por uma garota que deveria ter no máximo nove anos. Estava suja, com os cabelos desgrenhados e usava uma camisa que cobria o seu corpo inteiro. Ela cobrava o churrasco de um homem de uns 35 anos, vestido com um abadá e que estava muito constrangido pela forma como a menina cobrava. Ele resmungava e dizia que não devia nada para ela, que ela fez porque quis. Esse momento nunca saiu da minha cabeça. Lembrei dele quando terminei a leitura de A Rainha do Cine Roma.
Escrita por Alejandro Reyes, um mexicano que desde 1995 vive em Salvador, a publicação conta a história de Betinho e Maria Aparecida, duas crianças que desde muito cedo sentiram na pele os absurdos da vida. Foram espancados pelos pais e padrastos, violentados sexualmente em suas casas, e tiveram que fugir desse mar de lama para tentarem não enlouquecer. Com a fuga, passam a viver nas ruas de Salvador.
Circulando entre o centro e a Cidade Baixa, vão encontrando tipos que toda cidade possui: os bêbados, as prostitutas, os travestis, os policiais espancadores, as doenças, e o pior de todos os males: a indiferença da população. Crescem nesse meio insalubre, aproveitando tudo o que a vida pode oferecer tanto para o lado negativo como para o positivo. A passagem dos anos é observada não pelo número de páginas viradas, mas pelo sofrimento que a metrópole lhes causa.
O livro, lançado no final de setembro, é um verdadeiro soco no estômago dos desavisados, mas um retrato fiel da juventude que mora nas ruas e que luta para manter a dignidade em meio a tanta sujeira e misérias da sociedade. Uma obra que merece a atenção de todos nós.
Uma obra que fala de tudo. De sexo, drogas, de AIDS, de amizades verdadeiras, de mesquinharias, de alegrias e tristezas. Que retrata uma Salvador onde os Capitães da areia se multiplicaram. Mas acima de tudo, que exibe a força do ser humano. Um livro que mostra que o amor e o carinho ainda conseguem viver.
Fica a dica de canto de página: A Rainha do Cine Roma

10 de outubro de 2010

A ponte entre o humano e a condição de animal

Publicado no Diário do Nordeste


O espaço dos grandes centro urbanos, como abrigo às transgressões sociais, de há muito já se inscreve nos diversos gêneros, quer da prosa, quer da poesia. A partir do surgimento da literatura moderna, isso se fez presente com mais intensidade, o que, de certa forma, contribuiu para dissolver certas crenças em paz e bem-estar

O foco narrativo é conduzido em primeira pessoa, a internalização da leitura da trama se justifica plenamente por estar ela entregue a um dos protagonistas, Betinho - já morava na rua desde a tenra idade de sete anos, alimentando-se de pequenos furtos até o embate com coisas mais terríveis. Até que conheceu, também nos cenários das ruas, Maria Aparecida - uma frágil menina que, aos dez anos, após a morte da mãe, decide fugir de casa, uma vez que, antes, sofre abusos sexuais no espaço doméstico. Eles - os protagonistas - passam a ocupar um cinema abandonado: O Cine Roma; passam, então, a corporificar aquela metáfora de Cruz e Sousa: "Os miseráveis e os rotos / são as flores dos esgotos". No entanto, mesmo com tanto suplício, são capazes, assim, de cultivar fortes laços.

Considerando as tendências por que se movem as narrativas de ficção na pós-modernidade, ainda que o ponto de vista interno seja, predominantemente, conduzido pela personagem Betinho, tal não implica ausência de inúmeras vozes narrativas, numa multiplicidade de focos:"Maria Aparecida falava uma coisa, falava outras, contava tudo quanto é história, a gente ficava sem saber o que era verdade e o que era invenção de sua cabeça." (p.22) Com isso, o narrador passa também a interagir com o falar dessa personagem, ao mesmo tempo em que, apanhando um episódio aqui, outro acolá, ora como que tece uma colcha de retratos, ora com que manuseia as pedras de um estranho quebra-cabeças, vai, pouco a pouco, construindo aquela personagem aos olhos do leitor, sempre com tintas precisas e fortes de realidade.

O espaço da trama é a cidade de Salvador, na Bahia, - e não como não fazer uma referência ao romance "Capitães d´Areia", de Jorge Amado, ainda que o tratamento do tema, a composição romanesca, a construção das personagens e, ainda, o manuseio da linguagem sejam absolutamente distanciados. Se em Jorge Amado, evolam-se momentos de lirismo, se sentimentos de comiseração, se certos alumbramentos se façam presentes, aqui, a linha é outra: frases incisivas, curtas, cruas, numa plena harmonia com a atmosfera a envolver os excluídos.

Uma nota que merece registro é, sendo o espaço uma cidade da Bahia, não faltam traços singulares à cultura do povo baiano, tanto relativos à culinária, ao vestuário, a crenças, ritos e mitos: "A noite está uma lindeza, a lua brilha lá no alto, iluminando a gameleira e a mangueira, e o riacho que passa por perto, e cá dentro tem bandeirolas e folhas e laços vermelhos e um bocado de filhos e filhas de santo vestidos com as roupas de Xangô, Iansã, Ogum, Oxu, Iemanjá". (p23) E não faltam os foguetes a iluminar as mais variadas iguarias da festa.

Nos tempos do "Cine Roma", eles vislumbravam uma vida de gente rica, abastada, embora não acontecesse muita coisa. Até já consideravam coisa muito grande que eles morassem em um castelo, sim, um castelo, ainda que fosse um castelo abandonado, fedido, cheio de ratos e de baratas, mas, enfim, um castelo, em nada parecido com aqueles barracos sustentados por papelão. Ainda mais podiam curtir a praia, os amigos, as aventuras pela cidade; as coisas somente não se imprimiam como uma maravilha dentro dos limites dessa maravilha, por conta dos acessos de loucura, de descontrole, que tomavam conta de Maria Aparecida - nessas ocasiões, quem sempre levava a pior era o narrador, a quem, com desdém, insultava-lhe a condição de homossexual e também de abandonado de todos.

Mais à frente, a trama sofre uma transformação, e os protagonistas vão, rigorosamente, enfrentar a vida nas ruas, agora na condição exata de pivetes. Ficaram quase um ano morando no largo do relógio de São Pedro, com a casa, agora, improvisada de papelão. Eles deixavam a vida correr, virando-se com pequenos delitos, a partir dos quais conseguiam alguns trocados para a comida. No entanto, muito conscientes de que a vida nas ruas é mesmo uma vida de cão: "De tanto o povo tratar a gente como bicho, a pessoa começa a achar que é bicho mesmo, começa a agir como bicho, fazer qualquer besteira sem pensar em mais nada". Atormenta-lhes a ausência da resposta: como não tornar-se realmente um bicho?" A trama mostrará.

CARLOS AUGUSTO VIANAEDITOR

28 de setembro de 2010

Obra retrata a realidade da vida nas ruas

Publicado em: Bahia Notícias

A editora LeYa lança “A Rainha do Cine Roma”, o primeiro romance do jornalista e escritor Alejandro Reyes. Uma comovente e fascinante história, que brilhou entre os finalistas do Prêmio LeYa em 2008 - evento que homenageia e estimula a produção de obras originais de ficção em língua portuguesa. O evento acontecerá nesta quinta-feira, dia 30/09, a partir das 18h30, na Praia dos Livros (Av. 7 de Setembro, 3564, loja 2 – Largo do Porto da Barra - Salvador).

9 de setembro de 2010

Debate e bate-papo marcam lançamento na UFSCar de romance escrito por jornalista mexicano

Universidade Federal de São Carlos

O romance "A rainha do Cine Roma" será lançado em São Carlos no dia 9 de setembro em evento que acontece na UFSCar. A obra é o mais recente trabalho do escritor e jornalista mexicano Alejandro Reyes, que reside em Salvador, desde 1995, após passar pelos Estados Unidos e França. O lançamento, com a presença do autor, será precedido de um debate com o professor Wilson Alves Bezerra, do Departamento de Letras (DL) da Universidade.

O mais recente livro de Reyes é ambientado em Salvador e tem o português como língua literária. O autor é mestre em Estudos Latino-Americanos e colabora em vários meios alternativos, reportando sobre movimentos sociais no México e Estados Unidos. Além do romance que foi escrito em 2008, o escritor mexicano publicou os livros de contos "Vidas de Rua", em 1997; "O Lacandón", em 1997; e "Contos Mexicanos", em 2004.

Na palestra "A linguagem do Cine Roma e seus deslocamentos", o professor Wilson mostrará o funcionamento da linguagem no romance, além de discutir o lugar da narrativa oral na literatura brasileira. O romance é narrado por Betinho, menino de rua desde os sete anos que conta, já adulto, suas aventuras e desventuras para sobreviver e suas tentativas de amar. Escrito em uma linguagem crua, o tom da narrativa oscila entre o agressivo e o sensível, produzindo um resultado bastante peculiar.

A palestra do professor Wilson e o bate-papo com o escritor Alejandro Reyes acontecem a partir das 17 horas, no Auditório do Centro de Educação e Ciências Humanas (CECH) da UFSCar, localizado no edifício de aulas teóricas AT2, na área Sul do campus São Carlos. O evento é gratuito e aberto a todos os interessados, sem necessidade de prévia inscrição. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail espanhol.ufscar@gmail.com.

2 de setembro de 2010

Escritor mexicano Alejandro Reyes encontrou inspiração para livro na Bahia

Publicado em Correio Braziliense

Ronaldo Mendes

A RAINHA DO CINE ROMA Primeiro romance do escritor mexicano Alejandro Reyes.
Lançamento: Editora LeYa, 296 páginas. Preço médio: R$ 39,90

Reyes: 'Durante a escrita, passei horas andando pelas ruas, conversando com crianças, prostitutas e travestis' (Arquivo Pessoal
)
Alejandro Reyes levava uma vida com nível um pouco acima da realidade da maioria dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos. Tinha um emprego na área de informática e uma renda razoável. Mas algo não ia bem. Não era falta de dinheiro, o que ele precisava era de inspiração. Foi quando o inquieto escritor largou a aridez norte-americana e atravessou o Atlântico, onde ficou na Europa, “vivendo de trabalhos aqui e ali”. No entanto, não eram aquelas mesas de café nas ruas das cidades europeias que o inspirariam. Foi no clima tropical brasileiro que Alejandro se encontrou. “Nesse momento, tinha um romance fermentando na cabeça e quis procurar um lugar tranquilo para escrever. Escolhi a Bahia porque já tinha lido muito a respeito e tinha muito contato com o Brasil”, conta em entrevista ao Correio.

Era 1994. O plano inicial do escritor era permanecer pouco tempo, apenas o suficiente para terminar o livro. “Descobri na Bahia uma ressonância em mim... e terminei ficando uma década”. Por isso, quem lê a história de amizade, companheirismo, descobertas, dramas, perdas, violência e drogas presentes em A rainha do cine Roma, romance de estreia de Alejandro Reyes lançado pela editora LeYa, se impressiona com o preciosismo de cada cena descrita. “Durante a escrita, passei muitas horas andando pelas ruas, conversando com crianças, prostitutas e travestis”, lembra. “Por um lado, porque precisava entender melhor o submundo da noite, das drogas, da prostituição e do transexualismo. Por outro, porque escrevê-lo em primeira pessoa, na voz de um menino morador de rua, implicava num grande desafio linguístico.”

Submundo
A história de Betinho e Maria Aparecida é carregada de melancolia, mas também de uma alegria e esperança comuns às crianças. Com problemas familiares e sendo vítimas de estupro na própria casa, os dois vão parar na rua. Foi nesse ambiente escuso que eles se conheceram e onde se tornaram grandes amigos. O Cine Roma do título é um cinema abandonado onde os meninos vivem boa parte da trama. Nesse turbilhão, enfrentam traficantes, policiais, bandidos, moradores de rua e a exploração de cafetinas. Mas a narrativa de Alejandro não se limita às duas crianças. Personagens secundários aparecem e somem da trama, entrelaçando-se à história, que se passa numa Salvador talvez invisível aos olhos dos turistas — e até mesmo dos moradores. Retratar a pobreza com poesia, sensibilidade e, acima de tudo, mostrar o lado humano dessas pessoas é o grande mérito de A rainha do cine Roma.

Reyes: "Durante a escrita, passei horas andando pelas ruas, conversando com crianças, prostitutas e travestis"

Incrível também a capacidade que o escritor tem de “atravessar” as fases dos personagens centrais. Ao mesmo tempo em que conta a história das crianças, Alejandro passa ao leitor a sensação de que Betinho e Maria Aparecida envelhecem a cada página virada. Mas nada fora do contexto. Tornarem -se adultos, neste caso, não é obra da natureza, mas do meio em que vivem. Uma questão de sobrevivência.
Doutorando em literatura latino-americana com tese sobre a literatura marginal, Alejandro desenvolve diversos projetos ligados à área social. “A relação entre o ativismo e a literatura é complexa. Ambos implicam um compromisso com o nosso mundo e uma posição crítica perante a injustiça e a desigualdade”, defende. O escritor, no entanto, alerta para o risco de o trabalho ser visto de uma outra maneira. “Isso representa um risco para a literatura, que pode facilmente se tornar panfletária ou de bandeiras e punhos levantados”, analisa. Antes de A rainha do cine Roma, Alejandro havia lançado os livros de contos Vidas de rua e Contos mexicanos. Atualmente, o escritor vive no estado mexicano de Chiapas, desenvolvendo trabalhos com as comunidades indígenas.

TRECHO DO LIVRO
“Ficamos quase um ano morando no largo do relógio de São Pedro, nessa nossa casa improvisada de papelão, deixando a vida correr, se virando pra comer e ganhar uns trocados. Vida complicada nas ruas, sabe... Vida de cão. Mas, naquele tempo, a gente nem pensava muito na questão. Era o que era, só isso. Vide de pivete, vida de meninos de rua. A gente curtia, só fazia o que nos dava na telha e não tinha ninguém pra ficar dizendo o que podia ou não podia fazer. Mas passávamos por muita ruindade. Sempre ligados, sempre de olho pra ninguém fazer alguma merda com a gente, sempre com fome, sujos, fedidos. È coisa. E de tanto o povo ficar tratando a gente como bicho, a pessoa começa a achar que é bicho mesmo, começa a agir como bicho, fazer qualquer besteira sem pensar em mais nada. É o cão. Mas o mais difícil é ficar centrado, não perder a cabeça, não se meter em merda que não dá em nada que preste. É... o diabo é esse: como fazer pra não virar bicho. O resto... é resto...a gente vai driblando. Se conseguir não virar bicho...”

29 de agosto de 2010

Lançamento no Sarau do Binho

Publicado no blog do Sarau do Binho

LANÇAMENTO DO LIVRO "A RAINHA DO CINE ROMA" DE ALEJANDRO REYES

Nesta segunda 30-08-10 teremos a presença do escritor Mexicano Alejandro Reyes para lançamento de seu livro " A RAINHA DO CINE ROMA".



A Editora LeYa lança em agosto “A Rainha do Cine Roma”, o primeiro romance do jornalista e escritor Alejandro Reyes. Uma comovente e fascinante história, que brilhou entre os finalistas do Prêmio LeYa em 2008 - evento que homenageia e estimula a produção de obras originais de ficção em língua portuguesa.

“A Rainha do Cine Roma” traz a história de Maria Aparecida e Betinho, duas crianças que se conhecem nas ruas de Salvador e que, unidas pelo sofrimento e pela amizade, atravessam os duros dias de uma vida de abandono.

A narrativa do livro é feita em primeira pessoa, na figura do personagem Betinho: morador de rua desde os sete anos - sobrevivendo de pequenos furtos e michês - fugiu de casa para escapar da violência imposta por seu padrasto. Vagava pelas ruas da Cidade Baixa, sempre sozinho, até se deparar com Maria Aparecida, uma pequenina e frágil garota de dez anos, que sofre uma drástica mudança na vida após a morte da mãe e decide fugir de casa.

Vítimas de abusos por parte dos pais, Maria Aparecida e Betinho passam a viver em um cinema abandonado: o Cine Roma. E, apesar de todo o suplicio que lhes é imposto, os dois constroem um forte laço capaz de resistir a tudo.

Reflexões sobre temas negligenciados pela sociedade, como abuso sexual, drogas, homossexualidade, AIDS, prostituição, preconceito racial, violência física e o abandono, estão presentes nas 296 páginas do livro. Chama atenção dos leitores para um universo sujo e cruel, que é imposto àqueles que estão, desde muito cedo, às margens da sociedade.

É uma bela história sobre a esperança de duas crianças, maltratadas pela vida e pela circunstância, mas que nunca deixaram de acreditar que, um dia, poderiam ser amadas de verdade.

“Surpreendente e intenso, terno e violento, A Rainha do Cine Roma é mais do que um romance para leitores exigentes: é um verdadeiro hino à vida”. José Manuel Saraiva

“Quem tiver peito fraco, é melhor não tocar neste livro. Porque ele é duro, cru, verdadeiro. No entanto, no fim fica um fiozinho de açúcar, emoldurando uma réstia de esperança.” Pepetela, escritor e membro do júri do Prêmio Leya


O Autor

Alejandro Reyes nasceu na cidade do México, é jornalista e escritor. Depois de viver alguns anos nos Estados Unidos e na França, mudou-se para o Brasil, onde fez trabalho social com crianças e adolescentes de rua. É mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade da Califórnia e doutorando em Literatura Latino-Americana, cuja tese incide sobre a literatura marginal.

21 de agosto de 2010

Narrativa do corpo e da fala

Publicado em O Estado de São Paulo

por Wilson Alves Bezerra

Saber como fala um personagem é haver descoberto um destino, dizia Jorge Luis Borges. A constatação é uma boa chave para ler o romance de estreia do mexicano Alejandro Reyes, A Rainha do Cine Roma, escrito em português. Houve um tempo em que 'dar voz' a personagens marginalizados implicava uma espécie de reconstrução fônica da fala que contrastava com a língua bem falada do narrador, em terceira pessoa, o 'estilo esquizofrênico', na definição de Antonio Candido. Aqui, a estratégia é outra: aquele que fala, e escreve, faz parte da história narrada - Betinho, um moleque de rua já crescido, que conta sua infância e adolescência em Salvador, dá voz à narrativa.

Para os leitores do Brasil, essa voz tem sabor exótico: a cadência de oralidade proposta, além do registro da fala nordestina, traz elementos da sintaxe do espanhol - língua materna do autor -, resultando em expressões algo inesperadas ('morrer feita churrasco', por exemplo). A impressão é a de uma língua inventada, que lhe rendeu o segundo lugar no prêmio do grupo português LeYa, em 2008.

O maior mérito do livro é a reconstrução testemunhal da vida de rua do pequeno grupo de crianças nordestinas enjeitadas: do momento de sua saída, ainda na infância, da casa familiar à inserção no meio marginal. A narrativa de Reyes privilegia as dificuldades de sociabilidade das crianças no meio inóspito no qual contam, antes de tudo, com o próprio corpo como meio de sobrevivência e subsistência: na mendicância, nas lutas e na prostituição. O sexo surge ainda na infância, sob a forma de abuso do pai ou padrasto, e se torna a forma privilegiada de oferecer-se aos olhos do outro - adulto, estrangeiro, bem-sucedido - disposto a gozar (em todos os sentidos) de um corpo disponível, e dar a ele algum estatuto no grupo social. O próprio narrador se compraz, em alguns momentos, em colocar o leitor na condição de voyeur.

Nesse sentido, o livro é a narrativa dos corpos, nas diversas descrições de atos sexuais, incestuosos, homossexuais, grupais. Um dos personagens principais da trama é ele próprio um travesti, que procura na metamorfose física uma sorte de identificação consigo mesmo, completude e reconhecimento exterior, nunca encontrados. Interessante o Brasil marginal visto por este olhar, que recusa a síntese, e falado por vozes vacilantes, de destino incerto.

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTE DE LETRAS DA UFSCAR, TRADUTOR E AUTOR DE REVERBERAÇÕES DA FRONTEIRA EM HORACIO QUIROGA (HUMANITAS/FAPESP)

26 de julho de 2010

Homossexualidade e abandono são tema de romance em Salvador

 Publicado em Mix Brasil - Cultura GLS

Salvador é cenário para novo livro de Alejandro Reyes sobre homossexualidade e preconceito

A Salvador de todos os santos e desigualdades sociais é o cenário de “A Rainha do Cine Roma”, escrito pelo mexicano Alejandro Reyes-Arias e que conta a história de um menino e uma menina que, desde muito cedo, se deparam com a realidade de que a vida não é um sonho. Nesse caminho, prostituição, homossexualidade, preconceito, AIDS e violência estão sempre presentes.

Uma das finalistas do Prêmio LeYa em 2008, a obra é toda narrada em primeira pessoa por Betinho, que foge de casa para se livrar de um padrasto violento e cai no mundo das ruas para viver de pequenos roubos e programas sexuais. Já de cara o autor traz à tona temas nem sempre abertamente discutidos pela sociedade, assuntos jogados de lado para serem esquecidos.

Mas Alejandro não os esquece e coloca ainda no romance de 296 páginas Maria Aparecida, uma menina que surge na vida de Betinho enquanto ele vaga pela decaída Cidade Baixa. Ela também foge de casa por causa da violência, inclusive sexual. A situação nada boa une os dois com laços fortes o bastante para que eles possam enfrentar essa vida mais do que real.

20 de outubro de 2009

7 Leitores: A Rainha do Cine Roma

Publicado em http://7leitores.blogspot.com/2009/10/rainha-do-cine-roma_20.html


Pepetela afirma a pópósito:

"Quem tiver peito fraco é melhor nao tocar neste livro Porque ele é duro, cru, verdadeiro No entanto, no fim, fica um fiozinho de açúcar, emoldurando uma réstea de esperança."

De facto, "A rainha do Cine Roma" é um mergulho no lado mais negro da humanidade. salvador da Baía, prostituição infantil, álcool, droga, roubo, violência, estupro, transexualidade, corrupção dos que mandam, miséria levada até ao extremo, abandono, tremenda solidão.

Sabemos que o autor, mexicano a viver no Brasil, faz trabalho social com crianças e meninos de rua

Todo o livro, que é uma espécie de "Capiães da areia" do tempo do crack, ferve, amachuca-nos, arrepia-nos, faz-nos conviver dificilmente, dolorosamente, com uma realidade assustadora.

O Pepetela tem mesmo razão: "Quem tiver peito fraco..." No entanto, como também ele diz, ao lado da desesperança mais completa há sempre um fio de humanidade, uma luzinha ao fundo do túnel, a perspectiva positiva deixada por um escritor que acredita que, apesar de tudo, a vida ainda vale a pena e todos temos uma reserva de generosidade que pode sair cá para fora até nas piores circunstâncias.

É claro que o autor tem tanta e tão suja realidade para verter na sua escrita, que por vezes se esquece de se vigiar e de se conter. Repete-se, torna-se previsívelm aqui e ali, quase melodramático. No entanto, pergunto-me eu se é possível fugir às teias do melodrama quando tratamos da miséria moral absoluta, essa miséria que sustentou o desencolvimento desse estilo literário que teve seguidores tão respeitáveis como Zola ou Vítor Hugo.

Afinal, 150 anos depois, o capitalismo, na sua versão neo-liberal, mantém grandes bolsas de miséria pelo mundo fora e, por mais que se negue o papel da literatura na denúncia dessa miséria, os que como Reyes contactam com ela e tentam salvar dela alguns seres humanos, têm todo o direito e, se calhar, têm todo o dever de fazer da literatura um campo de batalha onde se luta por um mundo um poucochinho melhor.

A ternura e a solidariedade que o romance nos oferece ou nos promete é uma janela aberta, uma janela bem mais habitável que o retrato horrível que da Índia nos dá, por exemplo, em "O Tigre Branco", o premiado escritor indiano Aravid Adiga, onde parece não haver qualquer resto de esperança na humanidade.

10 de outubro de 2009

As vidas sem muros em ruas fortificadas

Publicado no Jornal A Tarde (mais temporada de patos)





Milena Britto[1]

“Tá, rapaz, calma, você não agüenta nada, não é só porque eu estou enchendo seu saco que você vai fechar o livro! O que acontece é que nós somos todos uma bosta, eu, você, o mundo todo, e se você não entende isso, você não tá com nada.”

Quem fala é Betinho, o narrador do romance A rainha do Cine Roma do mexicano-‘baiano’ Alejandro Reyes, finalista do prêmio Leya e publicado em Portugal pela Oficina do Livro. Ao longo do livro, Betinho, jovem morador das ruas de Salvador, interpela o leitor e o sacode do seu conforto, envolvendo-o diretamente nos dilemas éticos e existenciais, enquanto conta (com raiva, com ironia, com humor, com desespero, com ternura) a sua própria história e a de Maria Aparecida, também menina que vive na rua. A violência, o desamparo, o abuso sexual, a fome, as drogas, a prostituição, o desespero – e também o amor, a esperança e a dignidade – cobram vida nessas e noutras personagens das ruas, das favelas e do submundo da noite de uma cidade do Salvador que se transforma, ela própria, em personagem.

Seria fácil dizer que o romance é “um retrato da realidade como ela é”: a denúncia de um mundo fraturado pela desigualdade e o desvendamento de um universo ignorado. Mas o próprio Betinho desmancha a noção de verdade e a própria capacidade de narrar a realidade alheia: “Sei lá se o que vou contar aqui é verdade, vai ver que não foi nada disso, vai ver que não sei coisa nenhuma e não deveria nem estar falando”. O questionamento é duplamente interessante se considerarmos que o autor (que se apropria da voz de Betinho para falar desse mundo), não só não é menino de rua: não é brasileiro e nem mesmo o português é sua língua materna.

Assim, o autor desconstrói de antemão a tentação de uma leitura fácil como um romance de denúncia social ou de preocupação etnográfica, desafiando, desmanchando e repensando fronteiras com o fazer literário. O romance é, em muitos sentidos, um livro justamente sobre fronteiras. As fronteiras da linguagem (a escolha de um narrador de rua implica numa linguagem dura, colorida, cadenciosa, cheia de gíria e da inventividade popular). As fronteiras de gênero, onde a sexualidade se manifesta numa subversão constante das categorias estabelecidas (um ponto fundamental no romance é a exploração sensível da manifestação do desejo, da sexualidade e do amor fora dos padrões e a fluidez das categorias de gênero). As fronteiras raciais, sempre presentes por baixo da aparente malemolência da suposta democracia racial. E as fronteiras de classe. São estas últimas as que, no romance, se manifestam menos permeáveis, fraturas quase intransponíveis pelos personagens que, quando tentam atravessá-las, iniciam uma queda vertiginosa de decadência.

Título: A rainha do Cine Roma
Autor: Alejandro Reyes
Editora: Oficina do Livro
Preço: 13.50 euros

[1] Doutora em Literatura Brasileira e professora da UFBA.

Publicado no jornal A tarde, 26/09/2009

7 de setembro de 2009

A Rainha do Cine Roma: o drama dos meninos de rua do Brasil

Publicado em: Anjos e Guerreiros


“A Rainha do Cine Roma”, do mexicano Alejandro Reyes, da editora Oficina do Livro, comprova até onde a desgraça humana pode chegar.
Numa Salvador da Baía que de turística não tem nada, vivemos a dura realidade dos meninos de rua do Brasil. O livro foi finalista do Prêmio Leya.

O escritor angolano Pepetela, que fez parte do júri do Prêmio Leya, deixa o recado para o eventual leitor de “A Rainha do Cine Roma”: “Quem tiver peito fraco, é melhor não tocar neste livro. Porque ele é duro, cru, verdadeiro”. A realidade aqui não é portanto uma metáfora, pelo contrário, é apresentada sem subterfúgios e sem medo das palavras.

Alejandro Reyes, natural do México, morou nove anos em Salvador da Baía, no Brasil. Para contar a história dos meninos de rua conviveu alguns meses com os mesmos. E é essa vivência que o mexicano nos dá a conhecer pela voz de um dos protagonistas de “A Rainha do Cine Roma”, Betinho, o narrador da história, um narrador que por diversas vezes nos interpela ao longo da narrativa, procurando assim nos aproximar do seu drama.

Betinho, homossexual assumido, é a voz das ruas de Salvador, uma voz que não segreda nada, pelo contrário, é uma voz que grita o terror de uma vida no mínimo indigna, uma vida que coloca constantemente Deus em xeque.

Prostituição infantil, drogas, exploração sexual, pedofilia, pais que violam filhas, filhas que terminam com as vidas dos pais. Os horrores são inúmeros e Reyes não poupa ninguém, revelando um drama que para muitos é completamente desconhecido, mas infelizmente bastante real para a dignidade humana.
Betinho apaixona-se por Maria Aparecida e juntos têm uma relação de irmãos, amigos, namorados e amantes. É através dos dois que sabemos como é a vida dos meninos de rua do Brasil; é através deles que Alejandro Reyes constrói o seu romance, que tem a particularidade de ser escrito como se estivéssemos em plena Salvador, já que o mexicano resolveu escrever o seu livro utilizando a linguagem que os meninos de rua utilizam no seu dia a dia.

“A Rainha do Cine Roma” tem como principal problema os sucessivos infortúnios de Betinho e Maria Aparecida, que acabam por sofrer na pele as várias histórias que Reyes teve conhecimento quando fez o seu trabalho de campo. Em diversos momentos a esperança de uma vida melhor esvai-se e isso acaba por retirar ritmo ao livro. Mas esse pormenor não retira mérito a obra, pelo contrário. Antes de tudo Reyes pretendeu mostrar o drama dos meninos de rua. E conseguiu, sem dúvida, mostrando ao mesmo tempo que a indiferença não pode continuar.

4 de agosto de 2009

Retrato da rua sem anestesia



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Retrato da rua sem anestesia


Pepetela chamou-lhe um livro “duro, cru, verdadeiro”, impróprio para peitos fracos. Estava a falar de A Rainha do Cine Roma, primeiro romance de Alejandro Reyes e um retrato de dois meninos de rua no Brasil. Ana Dias Ferreira falou com o autor
 

Pepetela chamou-lhe um livro “duro, cru, verdadeiro”, impróprio para peitos fracos. Estava a falar de A Rainha do Cine Roma, primeiro romance de Alejandro Reyes e um retrato de dois meninos de rua no Brasil. Ana Dias Ferreira falou com o autor Alejandro Reyes, natural do México, morou nove anos em Salvador da Baía, no Brasil. Num deles, enquanto carburava num primeiro romance, o jornalista mergulhou na noite e nas ruas, apanhando o calão, as asneiras e as histórias – quase todas horríveis – das pessoas que ia encontrando. Nessa altura, Reyes já trabalhava com organizações de assistência social a meninos de rua, e lá pelo meio decidiu: o seu livro tinha de ser escrito pelo ponto de vista de um desses meninos. Chamou-lhe A Rainha do Cine Roma.
O romance, que chega a Portugal através da Oficina do Livro e foi finalista ao Prémio Leya, é um retrato duro e ao mesmo tempo comovente de duas crianças sem tecto: Betinho, o narrador, e Maria Aparecida. Entre os muitos temas tratados está a prostituição infantil, a homossexualidade e Deus.
Qual a história mais chocante que conheceu no Brasil?
Foram tantas… No romance há uma menina, a Perereca, que está cadavérica e acabada com crack, e ela é inspirada numa criança que conheci de facto, um menino de rua de quem me tornei amigo. Eu deixei de frequentar o centro da cidade durante um ano e quando voltei ele estava assim, não me reconhecia, estava cadavérico do vício da droga, andava correndo atrás dos turistas procurando dinheiro, não era mais ele. Outro aspecto da personagem Perereca, quando ela é violentada por dois polícias porque não quer fazer sexo oral de graça, também é uma história que escutei nas ruas. Há outras muito duras de crianças que fogem. Uma menina me contava que fugiu de casa aos seis anos porque o pai a violentava. E eu ficava tentando imaginar como é que aos seis anos a gente pode fazer uma decisão deste tamanho.

Nota-se que o livro é escrito por alguém que esteve no meio dessa realidade. É por isso que ele é tão real e tão duro?
Quando comecei a escrever o romance, um dos grandes desafios era como aproximar o leitor desta realidade. Passei um mês a tentar escrever o primeiro capítulo, a tentar achar uma voz narrativa. Finalmente, decidi ir por um caminho bastante difícil: ser um dos meninos de rua, o Betinho, o narrador. Portanto, o livro tinha de conter muito dessa linguagem de rua, muito mais dura e com a qual eu não cresci. Havia um desafio linguístico, e para poder incorporar essa linguagem passei muitos dias e noites caminhando pelas ruas e falando com as pessoas.

O narrador conta a história mas também interpela o leitor.
Há uma cena, quando a Maria Aparecida vai fazer sexo numa casa de massagens pela primeira vez, em que ele pergunta: e agora o que é que você quer? Quer que eu conte como foi para quê? E coloca ao leitor a questão do horror.

Nessa parte do livro ele acusa- nos de sermos um nojo. Tornámo-nos indiferentes?
Existem dois problemas retratados nessa cena. Um é a indiferença, que atravessa o romance, o outro é a cumplicidade e o atractivo pelo horror. Nessa cena, o que ele está a interperlar é o facto de que todos temos um potencial de horror, que de alguma forma tentamos conter, mas que “explode” no submundo das ruas. Falando da indiferença, o que me surpreende não é tanto o horror mas a capacidade de vivermos no meio dele sem enlouquecer. Hoje, nas grandes metrópoles – e na América Latina isso é muito claro – estão-se a construir muralhas para separar as classes sociais, muros físicos ou virtuais que nos dividem e nos impedem de ver o outro. Isso está a criar uma quantidade incrível de problemas, dos quais quem mais sofre é quem está lá em baixo.

A literatura é uma forma de lidar com o horror?
Sim. Para um escritor é uma espécie de catarse, uma forma de tentar ver de modo diferente e de transformar o horrível em algo bonito. Ao mesmo tempo – e sem ser a salvação do mundo – tem o potencial de rachar essas muralhas e criar pequenas janelas através das quais podemos ver o outro, e talvez assim sensibilizar quem lê.

O Brasil do livro é o de Salvador da Baía, que já estava presente noutro conto seu. Salvador é a sua cidade do coração?
É. Eu cheguei na Baía em 1995 e fiquei completamente deslumbrado pela cidade. A Baía tem algo muito poderoso que é a convivência entre a coisa mais sórdida e a mais bela do mundo. Contém o pior e o melhor do ser humano, ao mesmo tempo. Tudo está à flor da pele. Isto tem a ver com a própria história de Salvador, que foi o lugar com mais importação de escravos africanos. É uma região muito pobre, com diferenças sociais terríveis e um racismo muito forte, apesar do mito da democracia racial brasileira. É uma cidade muito forte e um material riquíssimo, que curiosamente não tem sido muito explorado na literatura recente. Explorou-se muito no modernismo, com o Jorge Amado, e agora parece que há um certo medo da parte dos escritores de chegar perto desse material. Como romper com a herança de Jorge Amado?

É verdade que foi para a Baía um bocadinho por causa dele?
Sim, na época me fascinou aquele mundo que ele descrevia nos romances. Só que quando cheguei lá dei-me conta de que já era outro mundo, igualmente mágico, mas outra realidade. Há uma tendência em Jorge Amado de idealização e folclorização que eu acho que é importante tentar quebrar, para falar do mundo que existe hoje. Estou a terminar um doutoramento em literatura latino-americana, e a minha tese é sobre a literatura marginal do Brasil. Há uma produção interessantíssima de autores que vêm das favelas, das periferias, ou até mesmo das prisões. É um fenómeno interessante porque conseguiu ter acesso ao mercado. Eu acho que esse tipo de literatura se escreve sempre, mas com o sucesso da Cidade de Deus, que foi escrito por Paulo Lins, que vem mesmo do bairro Cidade de Deus, houve uma abertura no mercado para esse tipo de literatura, que é espectacular.



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28 de junho de 2006

A Saga dos Anti-heróis

Publicado em Germina Literatura.



Alejandro Reyes é mexicano e mora em Salvador desde 1995. Pertence à nova geração de ficcionistas da Bahia. Publicou os seguintes livros de contos: Vidas de Rua (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1997); O Lacandón (Salvador: Bureau Gráfica e Editora, 1997) e Contos Mexicanos (Salvador, Bahia: A Romana, 2004).

Seu romance inédito, A Rainha do Cine Roma, possui a contundência de um documentário e a delicadeza de uma carícia; embora retrate a vida dos meninos de rua nos bairros pobres daquela cidade.

Conheci a ficção de Alejandro Reyes numa circunstância especial: participei dos trabalhos de triagem dos originais, em nível Nordeste, para o prêmio Sesc de Romance versão 2003, ao qual ele concorreu e foi contemplado com uma menção honrosa, já em 2004. Com a Rainha do Cine Roma ocorreu algo raro em concursos literários: o leitor crítico ser tomado por todo um clima que envolve o romance e o arrasta a uma cumplicidade com as personagens e suas circunstâncias.

Mais do que por simples curiosidade, tive um gesto desses que acarretam uma certa "felicidade clandestina", como a do conto de Clarice Lispector: abri o envelope de "Beto de Ogum". Pelas normas do "regulamento", não estava previsto que as comissões regionais votassem, e, portanto, abrissem os envelopes com a identidade dos concorrentes (no entanto, nos tinham sido enviados...) Enfim, se eu deixasse que incinerassem — fechado — aquele envelope, jamais viria a saber quem era Beto de Ogum. Lembrei o poema de Baudelaire A uma desconhecida; mais do que o charme, o mistério daquela que num instante, ao passar casualmente na rua, impressionou o poeta (e é de supor-se que o autor de As flores do mal nunca veio a saber quem foi a musa do seu poema)...

Fantasia à parte, foi desse gesto datado de um mês de abril, que resultaram um cartão, e nele a impressão que me causara a leitura de A Rainha... Em seqüência, alguns e-mails trocados e logo depois, em maio, a chegada de um novo livro pelo correio: Vidas de Rua; um livro tão denso e encantador, quanto o romance que desviou por alguns dias a rota de minhas leituras previstas.

Resta a expectativa de que algum editor desvie–se da rota do previsível em seus planos (para 2006?). Esse desvio poderá resultar em encontros surpreendentes. Não só com a atualidade e densidade do romance, mas até com antigos leitores divorciados da leitura e gratificados por re-conhecerem-se, tomados pela febre de uma narrativa em que a cidade grande é a principal personagem — da qual se geram todos os outros.
[Maria da Paz Ribeiro Dantas]

Entrevista: Alejandro Reyes
por Maria da Paz Ribeiro Dantas

Maria da Paz - Alguém comentou que a arte de hoje, incluindo evidentemente a literatura, é de um tremendo baixo-astral. Seu romance e contos refletem a miséria de existências humanas vivendo em submundos, como favelas e ruas das grandes cidades. Ao ler suas narrativas tem-se a impressão de que são destinos em que perpassa uma espécie de grandeza do horror. Você dispõe de um ingrediente a mais do que a representação do limite do desespero?


Alejandro Reys - Nada mais fácil, ao caminharmos pelas ruas das grandes metrópoles contemporâneas, do que nos depararmos com o sofrimento, a injustiça, o horror. O que surpreende não é mais o horror, mas o fato de o ser humano ser capaz de conviver tão comodamente com ele. Trata-se sem dúvida de um poderoso instinto de sobrevivência. Para suportar os embates de uma realidade violenta e cruel, o homem cria mil subterfúgios que lhe permitem fugir do vazio do absurdo e do arrepio do horror. Tranca-se em condomínios fechados, mergulha na ilusão da TV, protege-se das ambigüidades da vida na previsibilidade dos shoppings, ocupa-se com as minúcias ordenadas do seu cotidiano e com os pequenos e grandes dramas do seu viver pessoal. Não fazer isso, não fugir da evidência de um mundo tão evidentemente desordenado, atrever-se a encarar os horrores do mundo só pode ser feito com a fé religiosa de Aliosha ou com o desespero desvairado de Ivan Karamazov. Acreditando, como Aliosha, em um sentido ulterior, em uma ética, uma ordem, uma justiça para além do nosso mundo, incompreensível para nós, mas verdadeira e presente. Para quem não consegue ter essa fé, para quem, como Ivan, nada no mundo ou no além pode justificar o sofrimento de uma única criança, só resta o caminho do desespero e da loucura. Mas há ainda uma outra alternativa. Octavio Paz escreveu: "A história tem a cruel realidade de um pesadelo, e a grandeza do homem consiste em fazer belas obras da substância desse pesadelo, em transformar o pesadelo numa visão; em nos libertarmos do horror informe da realidade através da criação". Ele estava falando, evidentemente, do fazer poético, do fazer literário. E a literatura é, para mim, justamente isso: uma forma de dar sentido a um mundo sem bússola, uma forma de suportar o horror. As palavras de Octavio Paz se aplicam, de forma mais geral, ao fazer cotidiano do homem, à extraordinária criatividade com que consegue transformar o horror da vida em momentos belos, à força de vontade com a qual consegue manter viva a esperança quando tudo deveria levar ao desespero. Em um bairro pobre de Los Angeles, vi lutar — e ganhar — um boxeador mexicano que só tinha um braço. Numa rua da cidade de Puebla, vi um grupo de anciãs cegas tocando e cantando belíssimas músicas para ganhar alguns trocados, com uma alegria e uma emoção que me comoveram profundamente. Na Guatemala, vi os índios reconstruírem suas vidas, depois do exílio, na inóspita selva do Petén, enterrando as lembranças dos mortos e dos torturados com uma esperança e um otimismo que eu não consegui compreender. Acho que é isso o que você chama de "uma espécie de grandeza do horror". É a grandeza do homem que floresce e nunca desiste, transformando o pesadelo da vida numa visão de esperança.

MP - Tanto em A Rainha do Cine Roma, que recebeu menção honrosa no Prêmio SESC de romance 2003, como nos contos da coletânea Vidas de Rua, você constrói situações que dão ao leitor a impressão, pela ilusão de proximidade em relação ao mundo real, que está diante de episódios, vamos dizer verídicos. Só que a matéria é perpassada por um veio de humanidade que, no fundo, é ternura para com esses destinos totalmente desamparados. Considerando-se a personagem Mariana (do conto que tem esse título), a menina que conversa com a boneca, enquanto sonha com voltar para a mãe que a vendeu a uma casa de prostituição, você acha que a vida é madrasta?


AR - Creio que procurar justiça na vida é um exercício insensato. No entanto, nem tudo é obscuro, nem tudo é horror. Como eu disse, a grandeza do homem consiste justamente em saber transformar o horror em beleza, em encontrar faíscas de vida no meio da lama. A única coisa que não se pode suportar, porém, é o sofrimento de uma criança. O horror que tantas e tantas crianças têm de viver. Porque nelas não há opção, não existe o caminho da escolha. É inconcebível o mal que se faz a uma criança que se violenta, que se maltrata, que é forçada a viver o pesadelo como única realidade. Infelizmente, as histórias como a de Mariana são muito mais comuns do que se pensa. De fato, foi essa uma das coisas que me motivou a escrever A Rainha do Cine Roma: fazer uma homenagem a essas vidas desamparadas, que em nossas sociedades passam tão desapercebidas e que, no entanto, merecem o mais profundo respeito. Pela força de vontade sobre-humana, pelo esforço heróico daquelas que conseguem não sucumbir nas drogas, no crime, no completo abandono da dignidade, na morte.


MP - Em A Rainha do Cine Roma você aborda sem moralismo, mas com muita lucidez, a questão da exploração da sexualidade. Encara-a como única opção de sobrevivência para quem não tem outra alternativa a não ser morrer de fome. Como você consegue associar as situações escabrosas que daí derivam, com outras bifurcações que conduzem ao poético, como, por exemplo, os dois adolescentes fazendo amor numa caixa de papelão, protegidos apenas "por aqueles muros de nada"?


AR - É isso, justamente isso, o que eu quero dizer quando falo da extraordinária capacidade do ser humano de encontrar faíscas de vida no meio da lama. Uma das coisas que mais me impressionou quando comecei a ter um contato íntimo com as crianças de rua — através do Projeto Ibeji, que trabalha com meninos de rua com os históricos mais complicados, muitos deles com antecedentes criminais, e também através dos meus próprios contatos com as crianças do centro de Salvador — foi esse contraste espantoso entre as atitudes mais violentas e cruéis e uma comovente doçura infantil. Há nelas uma solidariedade, uma ternura, um desejo profundo de amor, tudo isso convivendo com a dureza, a frieza, a crueldade e uma tendência insólita para a violência. As crianças de rua são seres humanos com todo o seu esplendor e todo o seu horror multiforme, pouco tocadas pelos moldes da sociedade e da dita civilização. Essa cena — duas crianças se descobrindo num prodigioso encontro de humanidade, numa caixa de papelão, no meio da sordidez da noite — foi a melhor forma que encontrei de expressar meu deslumbramento e minha admiração por essa capacidade de amor dessas crianças, tão desprovidas de amor.


MP - Essas personagens que você constrói... vamos voltar a Mariana: ela parece ser o produto de um submundo que você, de algum modo, conheceu ou a ele teve acesso. Dá pra dizer como consegue simular tão bem a intimidade de quem vê de dentro, não de fora?


AR - No seu livro sobre Joaquim Cardozo você cita trecho de um poema dele:


Através do quarto iluminado da janela

Olho as grandes nuvens que chegaram do Oriente

E me lembro dos homens que seriam meus amigos

Se eu tivesse nascido em Cingapura.


Quando eu tinha 15 anos, mudei-me com minha família da cidade do México para a Califórnia. De repente, na ingenuidade da adolescência, descobri uma obviedade: existem infinidades de mundos paralelos, de realidades alternativas. O edifício conceitual que até então regia a minha vida desabou. Da perplexidade — e da angústia —, desse desabamento nasceu uma nova consciência da vastidão do mundo e uma sede pelo desconhecido. Uma certa procura recorrente por essa sensação de desabamento fecundo. Aos 27 anos deixei a sensatez de uma vida ordenada como engenheiro em informática, em San Francisco, para viajar pelo mundo. Essa aventura duraria mais de cinco anos e me levaria à Europa, ao Meio Oriente, à Ásia, à América Latina. Durante essas viagens, tentei entender as realidades tão diferentes da minha e que por isso mesmo me fascinavam. Minha relação com o submundo das ruas de Salvador e das grandes metrópoles tem tudo a ver com essa procura de desabamentos de estruturas e de noções preconcebidas. Trata-se de uma realidade paralela, presente, constante na cidade moderna, e no entanto infinitamente distante da dita normalidade; uma realidade invisível, escondida nos becos da cidade e nos porões da consciência. Metáfora do lado obscuro que nós todos temos. O mundo da prostituição sempre me fascinou pelo que fala sobre o ser humano. Acho que é no contato com a realidade-limite das fantasias e das perversões que o homem — e a mulher — revelam seus lados ocultos. Durante um tempo morei no Tenderloin, em San Francisco, e depois em Hells Kitchen, em Nova Iorque (quando a rua 42 ainda era a zona e não Disney Productions); andei muito em Saint-Denis em Paris, na Lapa (Rio), nas sempre sórdidas e coloridas ruas da Cohahuila, em Tijuana, e nos becos de Bangkok. E, sobretudo, nas ruas de Salvador. Porém, no que diz respeito especificamente ao conto Mariana, foi inspirado, não em experiências próprias, mas em um relato que li de um casal francês na Tailândia, que se dedicava a tirar crianças do mundo da prostituição, arriscando a própria vida nas mãos da máfia. Eles contratavam crianças, no hotel, e quando elas chegavam, davam-lhes brinquedos para se divertirem enquanto tramavam a melhor forma de fugir. O seu relato da ingenuidade e da simplicidade com que as crianças passavam do papel de objetos sexuais ao de crianças brincando com bonecas e outros brinquedos, causou-me profunda emoção.

MP - O romance A Rainha do Cine Roma é ambientado em Salvador. O conto Manduca do Forte, também. Pelo jeito, Salvador é uma cidade que exerce fascínio sobre você. Pode dizer por que e desde quando?

AR - Em 1995 cheguei à Bahia, em parte atraído pelas histórias de Jorge Amado e a fascinação pela capoeira, que eu praticava desde meus tempos em San Francisco. Minha intenção era ficar alguns meses, enquanto terminava um romance que eu tinha começado a escrever no México. Mas a cidade me seduziu, de tal forma, que esqueci minhas peregrinações e fiquei. É difícil definir o que há de especial nesta cidade, sem cair na pieguice da folclorização. A magia, o mistério, o misticismo, os orixás se fundindo com os santos e o som do batuque nos barracões dos candomblés, as rodas de capoeira, o colorido das velas flutuando em frente ao Forte do Mar, a alegria das festas de largo e o som do afoxé. Isso tudo sim, mas é muito mais. O que os promotores do marketing cultural ainda não perceberam e o que ainda não foi suficientemente explorado na literatura baiana contemporânea é o fato de que a Bahia de Jorge Amado, de Carybé, de Pierre Verger não existe mais. A cidade é outra, com todas as contradições, encontros e desencontros próprios da pós-modernidade. Acho que é dessa fonte e não do saudosismo ou da imitação de realidades alheias que os escritores contemporâneos devemos beber para desvendar na literatura a riqueza de um dos lugares mais extraordinários que já conheci.

MP - A matéria-prima de suas narrativas é sempre retirada do submundo da cidade grande?
AR - Não necessariamente, embora este seja um mote muito presente na minha escrita. No meu livro Contos Mexicanos, tenho alguns textos que se desenvolvem no âmbito rural mexicano. E outros que embora se ambientem no contexto urbano, não tratam diretamente do submundo. Esse livro, de fato, faz parte de um projeto maior, chamado Os Deuses São Pós-Modernos e Bebem Coca-Cola, ainda inédito. Nesse livro, trabalho com a questão da identidade (ou identidades) latino-americana(s). Reporto-me a símbolos, mitos, lendas e tradições do nosso continente. Embora o contexto urbano esteja de fato presente em muitos dos contos, a ênfase não é necessariamente na marginalidade urbana. Mas, sem dúvida o universo marginal das cidades é uma forte presença na minha literatura. O meu outro livro de contos inédito, O Néon Vermelho do Anúncio da Esquina, trabalha também com essa temática.

MP - Como foi o seu percurso existencial até se definir por essa opção?


AR - Eu acho que tem muito a ver com a minha relação com a cidade de Salvador, onde eu realmente me desenvolvi como escritor. É inevitável que uma cidade que exerce tanta força na gente se infiltre na escrita; é uma voz que exige ser falada. Mas tem também a ver com a nossa realidade contemporânea. O fenômeno urbano no pós-Guerra Fria e na era da globalização é tão fascinante que não dá pra deixar de explorá-lo. Eu acho até que ainda vou voltar a trabalhar com o outro lado das coisas: o mundo rural, os povos que ainda foram pouco tocados por esse turbilhão da pós-modernidade. Tenho imagens muito vívidas de aldeias na Grécia, de povoados indígenas no México, na Guatemala, na Bolívia, de mosteiros tibetanos no Ladakh. Eu ainda não soube o que fazer com elas, mas sei que algum dia terão de sair.

MP - Na ficção brasileira, quais os autores que mais te marcaram?


AR - Meu primeiro contato com a literatura brasileira foi Jorge Amado. Como eu disse, ele inspirou a minha vinda. Depois descobri Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, que considero uma das grandes obras da literatura universal. Lygia Fagundes Telles foi também uma das mais prazerosas descobertas que fiz; seus contos são de uma perfeição extraordinária. Gosto muito também de Lya Luft e Clarice Lispector. E Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Lima Barreto. E, sem dúvida, Antônio Torres que, além de ser um escritor refinado, é uma magnífica pessoa.

MP - E na literatura das Américas, de um modo geral?

AR - São tantos os nomes… temos uma literatura riquíssima em nosso continente. Os três romances que mais me marcaram foram O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, Pedro Páramo, de Juan Rulfo e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Mas gosto muito de Ángeles Mastreta e Elena Poniatowska, Carlos Fuentes, Vargas Llosa, Alejo Carpentier, Mario Benedetti. O cubano Pedro Juan Gutiérrez tem um trabalho excelente — e muito duro — justamente com o submundo urbano da Havana. Recentemente, eu li Diablo Guardián, do mexicano Xavier Velásquez, outro grande exemplo, e que trabalha com temas similares.


MP – O que me diz de seus planos de trabalho e criação no momento atual?


AR - Tenho várias idéias para um novo romance, mas nenhuma ainda se concretizou. Nos últimos meses tem sido um pouco difícil me concentrar plenamente na criação, desde que comecei o mestrado em Estudos Latino-Americanos, em Berkeley. Minha dissertação, que estou terminando agora, trata justamente sobre a infância no Brasil e a dicotomia entre as crianças protegidas e cuidadas das classes média e alta e o descaso e a violência contra as crianças pobres e marginalizadas. Tenho planos de traduzi-la para o português e publicá-la no Brasil, pois contém algumas reflexões importantes.


Em setembro, iniciarei o doutorado em literatura latino-americana, de forma que será um desafio encontrar tempo para a escrita. Mesmo assim, espero poder terminar algum livro neste próximo ano. Outra coisa que tem me interessado muito, ultimamente, é o movimento zapatista, no México. O Subcomandante Marcos e um grupo de zapatistas estão viajando por todo o país, desde janeiro deste ano, reunindo-se com os grupos e pessoas mais marginalizadas da sociedade. São grupos indígenas de todas as etnias, trabalhadoras e trabalhadores sexuais, empregadas domésticas, estudantes, gays, lésbicas e travestis, presos políticos, operários, camponeses, mulheres, crianças… milhares de pessoas que nunca tiveram como expressar suas dores, suas esperanças, suas lutas. Eu não tenho notícia de alguma outra experiência similar na história. Os zapatistas não falam (falam o mínimo); escutam. E assim, vão surgindo as histórias. Tenho seguido de perto a viagem deles e muitos dos depoimentos são profundamente comovedores. Estou planejando acompanhar os zapatistas a partir do início de junho, no último mês da viagem, pelos estados do norte do México e na capital. Depois, ficarei um mês nas comunidades indígenas do sul. Não sei ainda o que vai resultar disso, mas minha intenção é transformar em livro todas essas histórias.

Maria da Paz Ribeiro Dantas é poeta e ensaísta, paraibana, radicada no Recife desde 1963. Publicou O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo (Rio de Janeiro: José Olympio, 1985). Sol de Fresta, poesia (Recife: Edições Pirata, 1979), menção honrosa especial no Prêmio Fernando Chinaglia 1977, da UBE do Rio); Ilusão em pedra, poesia (Recife: Edições Pirata, 1981); Luiz Jardim – ficção e vida (Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1989). Tendo dedicado especial atenção à obra do poeta e engenheiro Joaquim Cardozo, publicou Joaquim Cardozo contemporâneo do futuro (Recife: Ensol Editora, 2004), livro que inclui biografia, estudo crítico e antologia. Tem poemas e ensaios publicados em diversos jornais e revistas de cultura. Participou de várias coletâneas de poesia.